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Estética da gambiarra na SPFW

18 de February de 2011

LEIA ESTE POST NO NOVO MODA ÉTICA:

http://modaetica.com.br/?p=1292

Quando eu fazia Iniciação Científica no Lab. de Química Inorgânica da UFMG (2008), uma das coisas que mais impressionava os pesquisadores internacionais era a quantidade de gambiarras do laboratório.

Como se faz pesquisa de ponta com tão poucos recursos técnicos e financeiros? Com muita criatividade, inventando maquinários e procedimentos com reuso de materiais ou utilização de matéria-prima não convencional.

Foi justamente a estética da gambiarra o que mais me impressionou na última SPFW (inverno 2011, edição de 15 anos).

Havia toda uma estrutura geométrica formada por ripas de madeira torneadas e encaixadas de maneira que davam a impressão de desmontar a qualquer momento.

Havia o lounge de um patrocinador, cuja estrutura de canos de PVC davam formas ao mobiliário, assim como estruturas com aparência de improvisadas para hidroponia (podia também ter cara de arte contemporânea – mas o que não pode ter cara de arte contemporânea, né? Ou melhor, a arte contemporânea é que é o sujeito, que tem cara de tudo, e expressa qualquer coisa; mas a questão é o design da moda, no evento de moda, não a arte; voltemos a ela). 

As samambaias dependuradas, plantas que em tupi significam “aquele que se torce em espiral”, decorativas à exaustão em décadas passadas, vulgares nas nossas florestas, esporófitas que talvez se reproduzam mais rápido que coelhos e ratos.  Sistematização da moda-samambaia: reprodução rápida, fácil e espiralada, que remete ao passado.

As caixas de papelão formando a textura das paredes: ok, era tudo papelão novinho em folha, mas bem melhor que tintas à base de polímeros – o que é bem mais comum (e bem menos sustentável) para forrar as paredes.

O “horse-parade”, que pra mim foi uma paródia da Cow Parade, mostrava um cavalo em branco sendo modificado pela arte urbana (ai, esse termo tem tanta discussão!), por desenhos new school improvisados. Bem poderia ser um ritual de oferenda de um objeto profano-sacralizado. Também poderia ser um cavalo de Tróia, mas cheio de oco por dentro – não seria o vazio e branco um poderoso inimigo disfarçado em formas variadas? É, era arte mesmo o que os dois caras abaixo estavam fazendo:

 

Voltemos a pergunta dos pesquisadores químicos: como fazer tanto com tão pouco? É que a improvisação é das principais características do povo brasileiro, a capacidade de se adaptar a uma nova situação, a facilidade de transitar, de transpor com pouco pelo desejo do novo.

Pra ser sincera, no evento eu estava bem decepcionada, esperava que uma certa quantidade de glamour e ostentação fosse coerente com a imagem do evento que é passada na mídia (pelo menos na minha leitura, até então). Levou uns dias para processar essas experiências estéticas e perceber que a estética do evento estava extremamente em acordo com o ethos da moda brasileira e a ética do nosso povo: alguns grandes feitos e efeitos com poucos recursos.

Ao final, achei genial tanta gambiarra! ;)Mas também achei que faltou ao evento um recurso elementar/fundamental que reflete essa estética da gambiarra na moda ou essa estética da moda-gambiarra (fosse essa a intenção do evento, claro, e não uma leitura particular de mais um blogueiro): o trompe l’oil, o tridimensional como ilusão representada no bidimensional.

 

 

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