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Breve introdução aos couros no contexto da moda ética

30 de March de 2011

Couro “metal free”, flor integral, com efeito “machiatto” feito à mão e estampa dark tamponado. Fornecedor: Brespel

LEIA ESTE POST NO NOVO MODA ÉTICA:

http://modaetica.com.br/?p=1446

Devido à ENORME procura por couros neste blog, vou compartilhar um trecho de um artigo que estou escrevendo sobre o tema. Há algum tempo atrás, uma revista destinada a vegetarianos havia entrado em contato comigo para poder dar uma definição clara sobre esses couros ecológicos, couros biológicos, couros sintéticos, couros vegetais, couros sem cromo, etc. E aí eu vi que o assunto é muito vasto e não consta na literatura, só no nosso conhecimento de mercado…

Couro livre de cromo com acabamento batik. Fornecedor: Criart by Brasil – Ecologic Leather

Segue aí:

Atualmente, a sustentabilidade se configura tanto como uma moda – no sentido de objetos que expressam um comportamento em um tempo – quanto como uma característica que o setor de moda tem buscado em função de consumidores cada vez mais informados e exigentes. Para atender a demanda por produtos “verdes”, sustentáveis e éticos, os fornecedores de componentes e materiais para as confecções têm procurado ofertar matérias-primas cujo primeiro pré-requisito é diminuir o impacto da produção no meio ambiente. Dessas matérias-primas, destaca-se o couro, largamente utilizado em vestuário, bolsas, calçados e acessórios em geral.

Couro bioleather estampado com pintura manual. Fonecedor: Berlonzi

No contexto da sustentabilidade e da moda, diversos termos são utilizados para designar os tipos de couros, como bio, ecológico, sintético, vegetal, etc., causando confusão não só para os consumidores na escolha do produto adequado, como para os estilistas e designers na escolha do material compatível à proposta conceitual e comercial da coleção e da marca.

Bioleather com 3 acabamentos. Fornecedor: Berlonzi

A napa, termo comum equivalente a couro bovino, muito utilizado pelos criadores de moda, significa, a rigor, espécie de pelica fina e macia. Com a profusão dos materiais sintéticos, que simulam as características óticas e de textura dos couros, a napa passou a ser compreendida também como tecido polimérico barato que imita o couro – ou seja, um couro sintético.

Couro bioleather grafitado. Fornecedor: Berlonzi

O termo couro sintético, por sua vez, estende-se a maior parte dos tipos de couro, por simular peles como de píton (cobra), crocodilo e avestruz, além da bovina. É um termo mais comum no âmbito da criação e desenvolvimento de produto de moda, pois para o consumidor final este termo passa a ter o “apelido estratégico” de couro. Assim, nas lojas, produtos de couro natural e de couro sintético (composto por tipos de polímeros, sendo muito comum o poliuretano) são chamados resumidamente de couro, com o intuito óbvio de se “vender gato por lebre”. Apesar disso, o termo “couro sintético” é proibido pela lei nacional (vide artigo 8º da lei 11.211/05, que diz “É proibido o emprego da palavra couro e seus derivados para identificar as matérias-primas e artefatos não constituídos de produtos de pele animal”), numa tentativa de proteger as indústrias de curtume do Brasil.

Napa snow estampa madeira. Fornecedor: Casa de Couros Romeu Ltda. COURO COM ESTAMPA DE MADEIRA É A ÚLTIMA MODA!!!😉

Por não provir do abate de animais e com a moda da sustentabilidade, o termo couro sintético passou a ser sinônimo de “couro ecológico”, o que é uma designação inapropriada e oportunista, afinal o plástico componente do couro sintético vem do petróleo.

Solado de couro reconstituído (isso significa farelo de couro aglutinado, o que não é nenhuma novidade, inclusive é um processo semelhante ao da couraça, da estrutura interna de cabedais; a indústria faz esse material pelo menos desde os anos 70). Fornecedor: Couro Ecológico

Na indústria da moda, o termo couro ecológico tem sido utilizado para as peles de peixes, sendo as mais comuns as de tilápia, salmão, pescada amarela e dourado. Mas por que somente os couros de peixe são ditos ecológicos? Isso se deve a proposição de que, com o abate dos peixes para o consumo alimentar, suas peles, ao invés de descartadas, seriam aproveitadas no setor de moda, e não apenas descartadas. A justificativa é questionável porque também valida o couro proveniente do abate de bovinos, que é comprado pelos curtumes. Os couros ecológicos também são conhecidos como “couros alternativos”, incluindo o couro de rã.

Pele de salmão com aplicação de estampa. Fornecedor: Nova Kaeru Exotic Leather

A Nova Kaeru, um dos principais fornecedores de couros ecológicos, que inclusive tem produtos homologados pelo respeitado Instituto e (ONG originada na Osklen, mas que funciona independentemente desta), oferece um produto chamado de “bio couro”. Tal método, de acordo com o fornecedor, utiliza exclusivamente produtos orgânicos, para que o couro possa retornar à natureza – daí a justificativa do prefixo “bio”, de biodegradável. É importante frisar a relevância deste método, pois os curtumes utilizam de diversos metais pesados, como cromo, que agridem o meio ambiente. No entanto, apesar de biodegradável, continua sendo pele de animal.

Napa metal, lixada com cera de carnaúba (que impermeabiliza e tem efeito antibacteriano e fungicida) e quebras naturais com acabamento perolado (que eu desconfio que seja à base de compostos inorgânicos). Fornecedor: Couroquímica

O verdadeiro couro ecológico é aquele que estritamente não agride a natureza – logo, nenhum dos couros mencionados até então, que ou vêm de animais ou vêm do petróleo. O legítimo couro ecológico chama-se, na verdade, “couro vegetal” ou ainda “encauchado”, produto proveniente do látex da seringueira (árvores do gênero Hevea) ou do caucho (árvores da espécie Castilloa ulei). O couro vegetal tornou-se bastante popular em meados de 2000, no auge da sustentabilidade como tendência de moda internacional, sendo fornecido pelas empresas Amazon Life e Treetap.

Couro lixado e batido com arte em laser Terra do Nordeste (natureza). Fornecedor: Couroquímica

Entretanto, devido à proibição legal da palavra couro para os produtos que não são de pele animal, a indústria tem usado não mais o termo “couro vegetal”, mas sim “laminado vegetal”, bem como “vegetable leather”. Ex. a empresa Ecológica.

Laminado vegetal natural aplicado em uma base rústica 100% algodão com toque macio e sedoso. Fornecedor: Ecológica

Acima: Laminado vegetal em látex natural com toque sedoso e suave. Abaixo: Laminado vegetal em látex natural. Fornecedor: Ecológica

Os fabricantes têm tentado inserir o couro vegetal ou laminado vegetal no mercado, mas esse material vende pouco. Seu processo de fabricação ainda não está otimizado; não há uma padronização do material, especialmente quanto ao seu estado ótimo de catalização. Em outras palavras, é um couro meio “grudento”, como um chiclete velho. E ainda tem um preço menos competitivo que os couros sintéticos – que se passam por ecológicos, na conversa que o representante e o vendedor tentam passar na gente!

Acima: couro semicromo acabamento batik. Abaixo: couro livre de cromo com acabamento batik. Fornecedor: Criart by Brasil – Ecologic Leather

      Saiba mais sobre couros em outros posts meus:

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