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DIY: (des)Faça Você Mesmo

3 de June de 2011

 LEIA ESTE POST NO NOVO MODA ÉTICA:

http://modaetica.com.br/?p=1979

Nada como um dia após pedir demissão do trabalho:  quinta-feira parecia sábado… Acordei mais tarde e fiquei pensando num rapaz que eu amo em segredo, o sol batia no rosto pela persiana e minha mente transitava entre o “sonhar um pensamento” e “pensar um sonho“… Estava precisando de ócio, até para reconhecer e admitir certos sentimentos e sensações a si mesma.

Livro O ócio criativo. É preciso equilibrar lazer, trabalho e estudo.

À  tarde, fui para a aula de Engenharia de Precisão aprender sobre motores e coisas aeroespaciais e, depois, passei no Instituto de Ciências Exatas, tudo na UFMG. Às vezes, ando com a impressão de que estou vivendo as mesmas coisas que meus pais quando tinham minha idade.

Alguma coisa nesses corredores tem um ar que me remete a um tempo que não vivi, ao começo dos anos 80 (eu nasci em 86), alguma coisa tem cheiro de Guerra Fria, parece que farejo que estão inventando em segredo tecnologias que usaremos contra nós mesmos, há algo intergaláctico no cotidiano.

Tecnologia: são foguetes ou torres de marfim do conhecimento científico?

Parece que as torres de marfim da pesquisa científica são foguetes que nos lançarão à morte. E nós nunca saberemos qual a razão do acidente do ônibus espacial Challenger, tratado na sociologia do conhecimento em “O Golem à solta – tudo que você deveria saber sobre tecnologia”.

Explosão do Challenger: a ciência não chegou a um consenso sobre a razão do acidente.

Livro O Golem à solta.

É como bater recorde no Tetris, do Gameboy de 1989, ao final das construções e desconstruções, um foguete é elevado ao espaço.  São constuídas torres altas, mas quando formamos linhas horizontais, desconstruímos nosso trabalho. Eu vejo o Tetris (e suas derivações de camelô que surgiram na época) como uma tradução lúdica do clima da Guerra Fria. 

E é interessante notar no papo de marketing que ouvimos o tempo todo sobre a “era das experiências“. E aí, designers, como eu, ficam atentos a projetar experiências. Uma das experiências que as pessoas gostam é construir com suas próprias mãos coisas para si mesmas.

Um dos conceitos “mais na moda”, dentro dessa ideia de construção, é o “Do It Yourself“, faça você mesmo. São kits “DIY”, às vezes com ferramentas, para que materiais sejam reconfigurados de acordo com algum projeto já proposto por um designer ou para adequar-se ao trabalho teleológico, isto é, o trabalho que já está na mente da pessoa, um esboço de projeto a ser executado.

O prazer do “Do It Yourself” pode estar relacionado a experiências sensuais, de satisfazer-se a si mesmo. Mas Freud morreu antes de explicar isso.

Alguns designers de moda, às vezes, se arriscam a propor algum projeto DIY. Vamos ver alguns exemplos, que foram moda, de 2004 a 2009:

Rayban Colorize

Vestido, cuja estampa desfaz-se ao ser lavado. Projeto de Michiel Shuurman e Berber Soepboer

Casaco feito de quadrados de velcro (12 x 12 cm) sobrepostos. Projeto da marca dinamarquesa Fortunecookies, que praticamente não existe na internet.

Esses projetos são interessantes na medida em que aumentam o ciclo de uso do produto e motivam um maior interesse e interação com o mesmo. Com um olhar mais marxista, acho isso tudo uma bobagem: não estamos projetando um produto ou uma experiência, mas incentivando o prazer do próprio trabalho.
Deixar que o próprio usuário construa suas coisas é uma faca de dois gumes. Por um lado, diminui-se os gastos com chão de fábrica, ou seja, os gastos da produção de um objeto numa fábrica são subtraídos por um suposto prazer de produção/construção por parte do usuário final. E tem mais: esse consumidor final estaria possivelmente pagando o mesmo por esse tipo de produto que atribui um serviço a si mesmo, ou seja, maior lucro para a empresa. Por outro lado, um crescente comportamento de pessoas desejando fazer as próprias coisas poderia levar a sutis sabotagens em alguns nichos de mercado, especialmente quando esses grupos se organizam sem fins lucrativos ou, vá lá, em cooperativas, associações de artesãos, organizações de filantropos, etc.

A sociedade indígena costuma ser uma ideia recorrente para exemplificar o que seria uma sociedade fundamentada na equidade e “sem fins lucrativos” – o que é uma falácia. Aqui índios constróem relações com o universo digital, o qual está constantemente se reconfigurando.

De uma maneira geral, a moda constrói e desconstrói, já produzindo roupas que são lixo. E aí eu fico meio desanimada, quando me deparo, ao final do dia, com a Máquina do Mundo, a mesma de um dos mais belos e fortes poemas de Drummond. Ou, como diria a Rita Lee, “tudo vira bosta” – essa é a moral da história.

Roupas feitas de saco de lixo. Fina ironia da metalinguagem.

from → Design, Livro
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