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Ideologia do Xale de Selim + produtos exclusivos + Mao Tsé-Tung

24 de June de 2011

Livro: O xale de Selim e outros contos. Balzac; editora Ediouro.

LEIA ESTE POST NO NOVO MODA ÉTICA:

http://modaetica.com.br/?p=2290

No final dessa manhã, estava terminando de ler uns contos do Balzac (um dos pais do realismo na literatura moderna). Um deles, O xale de Selim (de 1844), fala sobre vender um produto em Paris.

Não vou contar a história, só o final interessa aqui: após vender o xale mais caro da loja, que havia sido herdado por Josefine (de Napoleão), e tinha toda uma história da raridade da peça, os vendedores com o dono da loja se perguntam, dentre os demais xales, qual seria o próximo xale de Selim.

O que que isso tem a ver?

a) Ok, os vendedores às vezes contam uma boa história para empurrar um produto fracassado.

b) Sim, as marcas criam um ideário tão fortemente imagético e povoado de histórias afetivas que já não importa qual produto vendem.

c) Fato: é possível ter experiências estéticas reais por meio da ideologia da marca e da simbologia do produto – afinal, não estamos nos policiando o tempo todo, no ato de uma compra, sobre a representação do objeto. Não compartilho dos que afirmam: “oh, somos enganados pelas marcas”, pois ainda assim se tem uma experiência estética de real identificação com algo (ainda que uma parte da Verdade esteja omitida no Real).

d) Resumindo a ópera: a coisa é bem simples e as pessoas ficam felizes quando consomem/encontram algo/alguém com que se identificam. Isso me faz lembrar um poema que sei de cor e salteado, Eros e Psique, do Fernando Pessoa . Abstract: o princípe, depois de muito buscar a princesa adormecida, chega onde ela dorme e percebe que ele era ela. Interpretação profunda como um pires: amar o outro é amar a si mesmo.

O realismo é balzaquiano ou o mundo é que é cruel mesmo?

Vejamos:

produto/pessoa >> ideologia >> identificação >> felicidade pelo produto  >> amor a si mesmo

Como essa história poderia ser ética?

Bem, vem surgindo um comportamento de consumo em que:

as pessoas fazem seus próprios produtos ou mandam fazê-los conforme seus gostos e necessidades individuais.

Como nos velhos tempos antes da Revolução Industrial: manufaturando os próprios produtos 

Esse comportamento tem sido mais evidente na França e por parte de pessoas mais esclarecidas (com mais informações, não necessariamente mais poder de consumo). São pessoas cansadas de terem que escolher identidades alheias (as das marcas), identidades que as alienam de conhecer verdadeiramente os próprios gostos. De certa forma, é uma maneira de:

resistir a alienação de si mesmo imposta pela ideologia capitalista.

Observação: não se trata de customizar ou de adquirir kits pré-manufaturados do tipo do-it-yourself, pois nestes casos há uma adaptação do ideário da marca/produto ao ideário individual e/ou uma identificação parcial com o ideário adquirido.

Moral da história: um produto verdadeiramente ético seria aquele feito exclusivamente por ou para você. E o mercado de produtos de luxo sabe muito bem disso…

Essa história toda de Balzac, resistência, produto, capitalismo, amor, me fez lembrar um filme de arte que vi há uns seis anos, Balzac e a Costureirinha Chinesa.

Balzac e a costureirinha chinesa: bela fotografia e uma história sobre liberdade, amor e arte

Brevíssima sinopse: dois rapazes cultos se apaixonam por uma costureirinha bonita e ignorante que lhes apresenta diversos livros subversivos (Balzac incluído) na China de Mao.

Confesso: eu não gosto desse filme porque ela fica com o rapaz mais “sensual” e não com o mais “amoroso” (e inteligente, educado e… tímido). Tá, melhor motivo para não gostar do filme seria uma antipatia coletiva ao maoísmo – mas aí, não seria a minha identificação! ehehehe

Um dos livros que tenho aqui na minha estante é O Livro Vermelho, do Mao Tsé. Mas falar sobre ética, China e moda vai ficar para um post a posteriori…

3 Comments leave one →
  1. 24 de June de 2011 11:35 PM

    Oi, Luciana! Citei no meu blog (Costurar é viver) uma parte do seu texto, com os devidos créditos. Podia???
    Parabéns pelo seu trabalho.
    Abç, Fabiana

    • 25 de June de 2011 3:30 AM

      Ei Fabiana, nesse caso, só posso te agradecer!
      Obrigada😉
      absss

Trackbacks

  1. Contato da Folha de São Paulo « Luciana Duarte _ Moda Ética

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