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Desabafo: a Zara e o espetáculo da notícia de mais de 30 anos no Brasil

21 de August de 2011

A espanhola Zara respondendo pela cultura dela e pela cultura de produção antiética brasileira.

LEIA ESTE POST NO NOVO MODA ÉTICA:

http://modaetica.com.br/?p=2802

Essa semana(2011!), todo mundo só falou na Zara (tv, twitter, facebook, youtube), como se fosse novidade e coisa exclusiva dessa empresa o modelo de trabalho que pode ser entendido como escravidão pó-moderna. É o circo armado da sociedade do espetáculo mesmo, em que se fica discutindo os fatos e não os valores. Affff…

O Brasil é o Eldorado dos hermanos bolivianos desde 1950 (isso mesmo, há uns 60 anos…). Mas os registros antropológicos deles na indústria da moda remetem à década de 1980.

Em 2007, a Folha de São Paulo fez uma matéria excelente, os jornalistas foram até a Bolívia, refazendo o caminho dos imigrantes que vem a São Paulo sujeitar-se às condições das facções paulistas. Mas ops!, a realidade das facções (alcunha dos terceirizados que costuram as roupas das confecções) são costureiras anônimas, sem carteira assinada, que trabalham em suas casas mesmo na periferia dos grandes centros urbanos ou em cidadezinhas dos arredores. Isso é tão comum aqui em Belo Horizonte, em São Paulo ou – pode apostar – em qualquer lugar desse país. É uma prática já consolidada e dificilmente – a não ser que a sociedade se mobilize, isto é, haja uma mudança cultural (slow fashion? “conscientização”? boicote a mais da metade das empresas de moda? como obter informação sobre a conduta da empresa?) – o paradigma será outro, porque a moda é um mercado cujo tempo de produção é sazonal. Salvo as grandes confecções que garantem uma produção contínua o ano todo, a realidade das 70% de confecções nacionais (micro e pequenas) opera no time sazonal. Logo, a indústria da moda brasileira é responsável pelos maiores bolsões de desemprego, além de objetivar mesmo a informalidade. É um negócio extremamente lucrativo.

Se eu fosse do lado negro da força, ia fazer coleções com tecidos ecológicos e mandar produzir em facções: que é o que conheço de certos empresários de moda sustentável…

Sustentável tem nada!

Isso é o design verde (green design) dos anos 70 europeu somado a uma equidade dos tempos coloniais

A tal da moda sustentável e moda ecológica no Brasil equipara-se, em termos de requisitos ambientais, ao design verde que aconteceu nos anos 70 na Europa. Além disso, nossos empresários de moda que se apregoa sustentável, produzem por meio de facções, não garantindo os direitos trabalhistas das costureiras e fomentando a informalidade e o desemprego sazonal. Bando de Darth Vaders!

Pra quem lê um pouco de antropologia, sabe que essa história de boliviano trabalhando feito escravo na moda brasileira data dos anos 1980… E a Zara, gringa, que não estava aqui nesta época, 30 anos depois é tida como a vilã. Jornalismo de esquina esse que andam fazendo na televisão; e os blogs ficam copiando o noticiário e a moçada se alienando geral…

Tribunal de Nuremberg (aliás, minha irmã cdf tá indo morar lá, estudar mídia e teatro e tomar cerveja quente), em 1945 e 1946. Quem deve ser culpado pelos crimes nazistas? Hitler é uma imagem. A Zara é uma imagem. Ok, ambos culpados. Mas há toda uma conjuntura social e contexto histórico por trás.

Em 2009, no meu velho blog de moda ética, transcrevi uma matéria excelente sobre comércio equitativo, que saiu no Le Monde Diplomatique. A matéria é longa, é pra quem está interessando em saber além do meramente visível, dessa discussão superficial que está em pauta. Clique aqui.

Também transcrevi, em 2008, no velho blog, a tal matéria de 2007 da Folha de SP, sobre os bolivianos vindo costurar no Brasil. Clique aqui.

Há uma CPI na Câmara de SP investigando a coisa desde 2005… Por que não falam da Renner, Marisa, Riachuelo e C&A? É melhor pra imprensa em que sentido? Sempre a Zara… A Renner tem ações na Bovespa…

Que lobby ocorre?

Com a segunda guerra, e os recursos produtivos sendo destinados a indústria bélica, as roupas tiveram de ser recicladas, a silhueta passou a ficar mais seca/justa ao corpo, as pessoas tinham caderneta de compra de tecido, cintos não podiam ter mais de quatro centímetros e por aí vai… Essa bela montagem nos sugere várias coisas: 1º vemos Hitler como o chefe pop/espetacular/midiático, 2º a real é que a Hugo Boss forneceu uniformes para os nazistas (SS, SA, etc), 3º o pragmatismo da moda americana influenciado pela cultura de guerra. Genial o dono dessa arte!

Afff, desabafei. A questão não é a Zara, galera.

É a cultura de produção antiética no nosso país, fora o jornalismo televisivo de quinta categoria, um humorista fazendo cara de sério e reiterando o discurso vazio em que se discutem os fatos, isto é, a Moral do Espetáculo. A ética cede para a estética mesmo nessa sociedade do espetáculo… To aqui lembrando de um curso de Ética e Filosofia do Direito que fiz… Se eu animar, mais tarde jogo um pouco de filosofia nesse liquidificador, botar um John Rawls pra tocar um rock’n’roll nessa bodega, um dos filósofos e cientistas políticos mais estudados da atualidade (lecionou em Harvard, morreu em 2002), esse sim sabe falar de equidade, teoria de justiça ideal e não-ideal…;)

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