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Quântica, SusHouse, EcoHouse, serviços de moda sustentável, quântica nos produtos de moda sustentável

26 de September de 2011

O Bicho Papão da Quântica é um camarada simpático. (Fonte: filme Monstros S.A.)

LEIA ESTE POST NO NOVO MODA ÉTICA:

http://modaetica.com.br/?p=3070

Estive sexta e sábado a fazer um curso de Quântica para iniciantes na UFMG. Naturalmente, era a única pessoa da área de moda no meio de uma meia dúzia de professores de Física e uns alunos da área. Mas vá lá, sem medo do Bicho Papão, deu para aprender bastante e vou fazer mais uns cursos legais nas áreas de Física e Química.

Livro: Quântica para iniciantes: investigações e projetos. Tem um tanto de experiências para aprender a teoria na prática. É moleza mesmo.

A ciência é para ser fácil e acessível e não um monstro da razão. Logo, vamos falar um pouquinho de Quântica e Moda.

A University of  Colorado (EUA), por meio do PhET Simulations, disponibiliza mais de 50 simulações interativas sobre tópicos de Ciências, como Física Quântica e Química Quântica. É só fazer donwload e curtir as teorias.

Neste momento da madrugada, em que preparo aula sobre Uniformes Sustentáveis e Joias Sustentáveis, estou baixando o simulador The Greenhouse Effect.

Gosto demais de Arquitetura e, desde que mudei para BH, sempre vou nos coquetéis na Casa do Baile (uma das obras do Niemeyer, das primeiras, que fica na Lagoa da Pampulha). São os melhores coquetéis, os melhores eventos de arquitetura, tudo muito intimista, no máximo 50 pessoas. Nem acreditei quando veio o indiano Charles Correa, um dos maiores arquitetos do mundo, e tinha só umas 15 pessoas lá contando comigo. MUITO BOM. Ah, mas a imagem é sobre as eco houses. A história é o seguinte: há n-tipos de eco houses, para todos os públicos e gostos. O interessante desses projetos é que quase nunca há uma estufa para plantas, um tipo básico de “eco house”.

Agora, eco house mesmo é o que os caras estão fazendo: moldando as plantas com umas “órteses” para que elas configurem casas e objetos. Esse conceito chama-se Life Growing Architecture. Coisa de puristas da sustentabilidade. Eu sinceramente sonho em morar em uma casa dessas…

… e sentar numa cadeira dessas para ler meus livros. Bem, melhor comprar logo um terreno e ajeitar as plantas, porque vai levar uns 20 anos para “fabricar” os móveis e “construir” a casa. Slow design e slow architecture.

Só para fazer  mais um outro parêntesis sobre essa questão das  eco houses: muito do impacto ambiental da moda foi avaliado inicialmente pelo projeto SusHouse, cujo um dos tópicos da pesquisa desenvolvida na Holanda, Itália e Alemanha, Clothing Care, analisa o quanto as roupas consomem de energia e água em uma casa. Roupa é um dos produtos que mais impactam o meio ambiente… Eu já vinha lendo um material dessa metodologia gringa há uns três anos e no ano passado ainda calhou do meu orientador na Engenharia de Produção fazer um pós-doc em uma das universidades que disponibiliza essas pesquisas, a TU Delft (Holanda), daí eu fiz uma listinha de compras de maquiagem e perfume, nããão!, fiz uma listinha de busca de artigos na biblioteca de lá e, como se diz, saiu melhor que a encomenda. 

Essa imagem esteve até numa palestra do Flaviano Celaschi, um dos pesquisadores italianos (junto a Ezio Manzini e Carlo Vezzoli) que de vez em quando, costuma dar uma palavrinha sobre moda com ênfase em sustentabilidade. Ela refere-se a EGO, um serviço de moda que fica em Milão e consiste em: oferecer 365 roupas por ano em 08 estilos diferentes, para que sejam emprestadas uma por vez a cada sete dias por pessoa. Custa uns 90 euros por ano esse serviço que é tipo uma biblioteca de roupa. Esse é um dos conceitos mais avançados em serviço de moda. Aliás, to lembrando, eu ajudei a organizar o evento que trouxe o cara para o Brasil, foi em 2009, na Escola de Desing da UEMG. Conto do evento no meu velho blog de moda ética: http://ethicalfashion.zip.net/

Mas a gente falava era de Quântica. (Que rodeio que fiz para deixar o assunto interessante… rsrs!)

Quântica mesmo tem nada a ver com aquele filme picareta de auto-ajuda Quem Somos Nós (What the bleep do we know?), que tanto agradou às massas e fez com que um e outro estufasse o peito, “oh, gosto de quântica”.

Moro com duas moças do doutorado da UFMG (uma em Química e outra em Engenharia Química), fora minhas outras amigas e amigos de mestrado e doutorado em Química, e fora os colegas do Laboratório de Química Inorgânica (onde tenho um projeto de moda como voluntária), e ninguém gosta de Quântica. Porque a verdadeira Quântica tem nada a ver com aquele filme – que eu inclusive assisti logo que lançou (há uns seis anos) com um cara que dava aula de Física Quântica na Universidade de Brasília. Lembro do rapaz comentar +/- o seguinte: olha, o filme não procede porque se baseia no micro para explicar o macro e nós sabemos que não é assim, estão deturpando as teorias. Em geral, o filme foi bastante criticado pela comunidade científica por deturpar princípios básicos das teorias, especialmente de Mecânica Quântica. E, resumindo a ópera: Einstein deve estar mandando uma energia negativa para os produtores desse filme! hehehe =P

Tem uma frase do Einstein que eu eventualmente imprimo e distribuo aos amigos: “Se nós soubéssemos o que estávamos fazendo isso não seria chamado de pesquisa, seria?” Essas palavras são reconfortantes, mais do que as de Paulo Coelho (ieca!): “tudo dá certo no final”. 

Piadas e rodeios à parte, vamos ao que interessa.

A palavra quantum indica que o átomo não libera, nem absorve energia de modo contínuo, apenas por meio de “pacotes” com valores específicos de energia. Essa palavra está na origem das expressões Física Quântica e Química Quântica que significam Física ou Química do Quantum. […] os quanta de energia manifestam-se sob a forma de fótons. Os fótons são quanta de luz e seu nome distingue-se de outros quanta de energia – como é o caso dos fônons, por exemplo, que são pacotes de energia mecânica associados a diferentes níveis de vibração dos átomos. A quantidade energia contida em cada “pacote de luz”, isto é, em cada quantum ou fóton de luz, determina a cor da luz. Na faixa do visível, um fóton de luz violeta contém mais energia que um fóton de luz vermelha. Fótons com menos energia que os fótons de luz vermelha não são visíveis ao olho humano e são conhecidos como fótons de infravermelho. Fótons com mais energia que os fótons de luz violeta também não são visíveis e são conhecidos como fótons de ultravioleta. (PAULA, 2011, p. 65 e 66)

Diversos comprimentos de onda. Tem alguma coisa de Pink Floyd nisso… que será?

E o que esse teco de teoria tem a ver com moda ética?

Muita coisa.

A tecnologia é uma das maneiras de somar valor ao produto de moda sustentável – no contexto de cenário hipertecnológico (além do hipercultural, ambos descritos por Manzini e Vezzoli, 2005). O Brasil ainda está vivendo os anos 70 europeu, no sentido que ainda está educando seu consumidor a perceber o que é sustentabilidade por meio de produtos com aspectos de rústico e personalizados, estética bem alcunhada pelo Trendwatching em junho de 2008 como eco-ugly (eco feio). E bem, um jeito de não deixar o produto sustentável com aquela cara de eco-ugly, tão característico da moda ecológica made in Brazil, é usufruir da tecnologia.

Mas como disse ao falar das roupas do meu namorado, tecnologia na moda custa caro. Na moda sustentável então… (um tecido ecologicamente correto custa em torno de duas vezes mais que um não ecológico).

Dois tipos de denim (tecido que, junto ao pigmento índigo, forma o que chamamos de jeans) associam a quântica na sua história, sendo que um deles é sustentável e outro não. Vamos falar dos dois.

Jeans orgânico com acabamento Alsoft Amazontex, que protege a pele dos raios ultravioletas.

Alsoft Amazontex, da Tavex (que comprou a Santista em 2009)

É um acabamento nos tecidos, que provém das sementes de cupuaçu (fruto típico da Amazônia) e protege a pele dos raios ultravioletas (opa, dos fótons ultravioletas!). Além disso, não contem silicone (amplamente usado nos acabamentos resinados dos tecidos), é hipoalérgico e protege da umidade. A extração do cupuaçu para uso na moda, pela Tavex, configura-se como um projeto social e beneficia 700 famílias na Amazônia (bem, é o que dizem). O cupuaçu pode então valer-se como um protetor solar… E a moda pode reduzir índices de câncer de pele. Isso é ético e ecológico. Eu cheguei a trabalhar com uma malha com Amazontex, tem um toque bem gostoso no corpo.

Jeans da Diesel, que brilha no escuro. O efeito fosforescente dura apenas até a quinta lavagem. Aqui a quântica e a ecologia vão por água abaixo pelo fast fashion.

Luminato Denim ou “jeans que brilha no escuro”, da Santana Têxtil

Tem blogueiro e jornalista de moda confundindo alhos com bugalhos: esse jeans tem efeito fosforescente (escreve-se com “sc”, vem do elemento fósforo; não é florescente, que não existe, nem fluorescente, do elemento flúor). Desabafo: me dá uma canseira ver os termos escritos equivocadamente e por gente responsável por difundir informação e conhecimento… Bem, a Diesel usou em 2010 (inclusive tags e linhas de costura fosforescente), depois foi a Naked & Famous Denim e, por fim, a nossa brasileira Ellus em 2011, cujo carro-chefe é o jeans e é uma das principais marcas de moda do país. Aliás, o empresário Nelson Alvarenga (sua mulher, Adriana Bozon, é a estilista responsável) é considerado o homem mais poderoso da moda brasileira. Cheguei a transcrever uma entrevista dele na Folha de São Paulo em meu velho blog de moda ética. Voltando à quântica: a fosforescência é um treco difícil de explicar em nível de elétrons. Mas vou tentar: os pacotinhos de luz, que chamamos de fótons, tem quantidades diferentes de energia, as quais são proporcionais às frequência das ondas luminosas provenientes da fonte de luz. Até aí, beleza, acontece que há um determinado nível de energia, considerado como “armadilha“, que faz com que o elétron salte da camada de menor energia para a de maior e, ao retornar a anterior, cai na camada (nível de energia) da armadilha (camada metaestável), liberando um fóton de luz característico dessa transição. Essa luz caracteriza o fenômeno luminescente e fotoquímico da fosforescência, que é a capacidade de emitir luz mesmo no escuro.

Único gráfico que achei na internet demonstrando o efeito. Tá ruim de ver, mas mostra isso: o elétron sobe de uma camada para outra, mas quando tenta voltar pra onde veio, eis que há uma armadilha no meio do caminho, e ele é capturado. Ao ser pego na armadilha, ele libera uma luzinha, um fóton, que é sua energia, e é o brilho do jeans no escuro.

Agora, tem um porém: toda a quântica de ambos os materiais vai pelo ralo, isto é, depois de n-lavagens, adeus tecnologia, adeus ecologia. Esses acabamentos ainda são direcionados para o fast fashion, para roupas com pouco ciclo de uso. Não é para durar. Infelizmente.

Mas estamos no caminho, os conhecimentos em Quântica são uma oportunidade para a Engenharia Têxtil se desenvolver na área da Sustentabilidade.😉

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