Skip to content

Tudo sobre couros, na revista Tag (e aqui no blog também!)

4 de November de 2011

LEIA ESTE POST NO NOVO MODA ÉTICA:

http://modaetica.com.br/?p=3164

Recentemente, servi de fonte para uma reportagem sobre couros da revista Tag, de Bauru-SP. (Neste ano, outras mídias, como Folha de São Paulo, Rede Record, Jornal da Pampulha, também entraram em contato para trocar ideias sobre Moda e Sustentabilidade).

O tema da edição #5 da revista Tag é Reutilização, com muitas infos de moda, design e sustentabilidade. Está muito legal mesmo a revista! Vá direto para as páginas 32-33 e leia mais sobre couros!

Para quem quiser saber mais sobre couros, segue abaixo sabatina, perguntas inteligentes que são raros os jornalistas capazes de fazer.

————————->>>>>>>>>>>>>>>>>>>

Entrevista Revista Tag UNESP – Bauru/SP

Lívia Neves

Luciana Duarte

  1. O que é o couro em si? (Existe uma lei que não permite que materiais que não tenham origem animal sejam chamados de couro)

No contexto da moda, couro é toda pele animal, do couro bovino ao couro do pé de galinha. De acordo com interpretação do artigo 8º da lei 11.211/05, couro é a matéria-prima constituída de pele animal.

A saber, o artigo diz:

“É proibido o emprego, mesmo em língua estrangeira, da palavra “couro” e seus derivados para identificar as matérias-primas e artefatos não constituídos de produtos de pele animal.”

  1. Como o couro surgiu no vestuário?

Infere-se que o couro tenha surgido no período pré-histórico. A antropologia da arte e história da arte atestam que os homens considerados pré-históricos valiam-se das peles, ossos e dentes dos animais (ex. mamutes) para adquirir os poderes dos animais após caçá-los. Nesse sentido, o uso da pele animal (couro) surge, como veste com finalidade mística. Outras finalidades de surgimento do couro no vestuário é como abrigo para o corpo das intempéries climáticas e como proteção para os pés (solados).

Não sei precisar qual a data de surgimento de couro, mas a lã, que é um produto da pele animal, é considerada tendo surgido com os povos da Mesopotâmia em cerca de 7.000 a.C.

Vale lembrar que o conceito e dinâmica de moda surgem em 1850 com Charles F. Worth; logo o couro, enquanto produto para o vestuário (incluindo calçados e acessórios) de moda, é considerado tendo surgido a partir de então.

  1. Por que ele é tão valorizado, atualmente?

Creio que o couro em si nunca deixou de ser valorizado, devido a suas propriedades de resistência mecânica que lhe conferem durabilidade com o uso e o fazem sinônimo de produto de “qualidade”.

Atualmente, os couros considerados exóticos (vide couro de rã, avestruz, píton, etc.) – ou exotic leather – estão na moda, com diversos acabamentos e cores. Diversas terminologias impróprias, como couro ecológico e couro vegetal, também situam o couro como assunto da moda, atribuindo a essa matéria-prima o valor daquilo que está em evidência na sociedade.

A saber, no meu blog e pelos mecanismos de busca do WordPress e do Google para chegar ao blog, os termos couro ecológico e couro vegetal são os mais buscados diariamente, há meses.

  1. Qual a diferença entre a composição do couro animal e do couro ecológico/sintético?

Para situar nossa conversa dentro da lei, vamos considerar os termos:

  • Couro animal equivale a couro. Somente a palavra couro basta designar o material constituído pele animal, que pode ser do couro de coelho (branco, com pelos felpudos e macios) ao couro de tilápia (com textura em alto relevo geométrico depois de retiradas as escamas). O biocouro (ou bio-couro ou bioleather) pode ser considerado como um subconjunto do grupo couro, determinando couros que são processados com a ausência ou o mínimo de materiais tóxicos nos curtumes. É um termo bastante em voga.
  • Couro ecológico equivale a laminado vegetal ou laminado recuperado de couro. Laminado vegetal é sinônimo de encauchados, uma tecnologia social dos índios andinos apropriada há cerca de oito anos pela indústria brasileira (inicia-se com a empresária Beatriz Saldanha e sua empresa Amazon Life), constituindo-se de uma camada de tecido natural (ex. algodão) que recebe sobreposta uma camada de látex proveniente das seringueiras. Já o laminado recuperado de couro é um produto constituído de couro considerado resíduo de curtumes (de acordo com empresário da Couro Ecológico, o Brasil gera 30.000 toneladas de resíduo de couro por mês) associado a um material aglutinante, unindo tais fragmentos moídos do resíduo de couro.

A saber, na indústria da moda, o termo couro ecológico tem sido utilizado para o couro propriamente dito, principalmente referindo-se às peles de peixes, sendo as mais comuns as de tilápia, salmão, pescada amarela e dourado; quanto para o laminado vegetal, o laminado recuperado de couro e o “couro sintético”, isto é, o laminado sintético, constituído de polímero (ou, designação vulgar, plástico) proveniente do petróleo (recurso natural não-renovável).

  1. Qual a eficiência do couro na questão de durabilidade e resistência?

Não disponho de dados quantitativos sobre a resistência mecânica do couro. Acredito que tais informações precisas possam ser encontradas nas áreas de Engenharia Têxtil e Engenharia de Materiais. Se não, são uma oportunidade de pesquisa.

Considerando dados qualitativos e empíricos, em termos de aparência visual, o couro, mesmo desgastado pelo uso, é tido – atualmente, na moda vestuário e no mobiliário – como mais bonito,preferível que o laminado sintético. Esse desgaste é chamado “efeito used”, de usado; em tempos de incerteza e mudanças no mundo, é um material eficiente em termos de semântica, dialogando com a estética vintage, proporcionando conforto sensorial (ao contrário do sintético, possui poros e permite que “o pé respire”, transpire), conferindo identidade de legítimo e proporcionando, por essas razões, segurança ao usuário, por ser também um material bastante conhecido, genuíno e há muito tempo em uso (antigo, convencional, resistente, autêntico, duradouro).

Talvez este seja um caminho que responda a suposição da pergunta n. 3, de que o couro esteja na moda. Na verdade, a estética vintage (objetos antigos e resistentes proporcionam segurança e conforto em tempos difíceis e incertos) é que está na moda (isso não significa tendência, mas resposta da indústria da moda a uma demanda do consumidor), e o couro propriamente dito é um material que sempre esteve em uso, mas que se evidencia na moda por meio da necessidade de consumo, isto é, da motivação do comportamento das massas por produtos que transmitam os valores subjetivos já assinalados.

  1. Como devemos cuidar da peça para que ela dure por mais tempo?

Essa é uma questão que abrange diversas opiniões. Pessoalmente, por considerar o couro uma pele, eu conservo meus sapatos e acessórios de couro limpando-os com flanela levemente úmida, raramente uso álcool, costumo passar hidratante corporal (o mesmo que uso para minha pele), nunca uso graxa nem produtos para finalidade de conservação de couro que são comercializados em supermercados. Como designer, evito comprar sapatos cujas partes frontal (que cobrem os dedos) e posterior (cobrem o calcanhar) sejam de couro, porque as mesmas sofrem mais desgaste ao caminhar, logo, arranham com maior frequência o material – ou seja, procuro por boas soluções de design de calçados que valorizem o material para que o mesmo tenha maior ciclo de uso e de vida.

  1. Qual alternativa é melhor para o meio ambiente, sendo o sintético derivado do petróleo e o legítimo dependendo da vida de um animal?

Desconheço estudos que apontem qual a melhor alternativa. A saber, a ferramenta “Análise do Ciclo de Vida” pode indicar qual o caminho de menor impacto ambiental, sendo essa uma oportunidade de pesquisa.

Com base nas informações que tenho, infiro que a melhor alternativa não é nem o laminado sintético nem o couro, mas sim o laminado vegetal, que combina uma fibra têxtil natural e possível de ser orgânica com um material renovável e natural, que é o látex. O sintético, para justificar a extração de um recurso natural não renovável, como o petróleo, precisaria ter propriedades mecânicas e estéticas equivalentes as do couro. Por outro lado, sabemos que o couro bovino, amplamente usado na moda, provém do abate de animais que emitem gás metano, um dos maiores causadores do efeito estufa. Há alguns anos, morei com uma pesquisadora norte-americana cujo objeto de pesquisa era mapear as emissões de metano dos rebanhos bovinos no Brasil. Uma pesquisa indica que o Brasil possui o segundo maior rebanho do mundo (quase equivalente ao número da população brasileira), responsável por 29% das emissões de metano no país, contribuindo fortemente para o aquecimento do planeta e todo o desarranjo da natureza. Como vemos, uma coisa leva a outra, e daí podemos notar a relevância social de diminuir ou restringir o consumo de carne vermelha e de produtos de couro. Em outras palavras: consumir produtos de couro estimula o aumento do aquecimento global.

Logo, trata-se de uma questão controversa, impossível de ser respondida apenas com informações não comparativas com os mesmos parâmetros e em termos quantitativos para os distintos materiais.

  1. Qual alternativa é mais cara para se produzir?

Não disponho dos valores exatos de produção e comercialização do couro e dos laminados. Essa informação pode ser obtida com base em dados estatísticos formulados após pesquisa com os produtores e demais stakeholders.

Pessoalmente, infiro que o material proveniente do abate de animais é mais caro, porque envolve a criação (manutenção do pasto, abrigo, alimentação, vacinação) de diversos seres vivos e a posterior transformação de suas peles nos curtumes, ou seja, são duas etapas para obter o couro. Já o sintético, amplamente produzido na China, é comercializado com valores abaixo do couro.

  1. Sobre a questão da retirada da coleção de pele da AREZZO, como você se posiciona sobre o assunto? Não seria muita hipocrisia permitir que couro de vaca seja livremente explorado, mas o de raposa/ovelha seja restrito? As vidas estão sendo tiradas da mesma forma.

Os fabricantes, como no caso do Birman (empresário da Arezzo), valem-se do argumento que o couro provindo do abate de animais destinados à alimentação do homem é justificável como matéria-prima nas coleções de calçados e acessórios. Já o couro provindo do abate de animais exclusivo para uso na moda (ex. raposa, chinchila) deve ser recriminado. Na época, a empresa manifestou-se por meio de uma nota no site, demonstrando uma postura de ausência de responsabilidade pelos materiais que utiliza (cito: “Não entendemos como nossa responsabilidade o debate de uma causa tão ampla e controversa”).

Baseando-me em Flusser, um dos principais filósofos que tem sido estudado na área de design e comunicação, afirmo que: a incompetência da universalização autoritária das normas, a complexa rede industrial como responsável moral por um produto e a novidade da questão da ética como pertinente ao desenvolvimento de produtos, configuram um cenário de muitos questionamentos e poucas respostas. Estamos em um momento em que a ética na indústria está sendo discutida; apontar um julgamento de valor (caso da palavra hipocrisia) restringe a discussão; a empresa e os consumidores estão aprendendo juntos o que é e como deve ser a ética da sustentabilidade.

Eu, inclusive, que embora seja pesquisadora de moda ética, tenho três pares de sapato Arezzo com couro bovino. No entanto, a partir do momento em que tenho acesso a informação de que a criação de bovinos para abate (com finalidade de alimentação humana, couro para a moda, ossos como fertilizantes e demais subprodutos) fomenta o aumento do aquecimento global (fato que tira a vida de milhares de outros seres vivos), eu passo a ser responsável por esse conhecimento e uma mudança na forma de viver se faz necessária (para mim, não faz mais sentido comprar produtos de couro, ainda mais os da Arezzo). Grosso modo, resumindo dois milênios de filosofia, ética significa viver para o bem. Hipocrisia seria saber de tudo isso e continuar a viver comodamente, consumindo carne e couro, um consumo que não visa o bem da biosfera.

Referências

CIDREIRA, R. P. Os sentidos da moda: vestuário, comunicação e cultura. São Paulo: Annablume, 2005.

CHATAIGNIER, G. Fio a fio: tecidos, moda e linguagem. São Paulo: Estação das Letras Editora, 2006.

CHEHEBE, J. R. B. Análise do ciclo de vida de produtos – ferramenta gerencial da ISO 14000. Rio de Janeiro: Qualitymark Ed., 1998.

COMPARATO, F. K. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

FLUSSER, V. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

LEE, M. Eco chic: o guia de moda ética para a consumidora consciente. São Paulo: Larousse do Brasil, 2009.

MANZINI, E.; VEZZOLI, C. O desenvolvimento de produtos sustentáveis. São Paulo: EdUSP, 2005.

Entrevista Wolfgang Goerlich presidente do Centro das Indústrias de Curtume do Brasil

Couro ecológico

Environmentalists thought they could save the rain forest and make money at the same time. They were wrong. In: Newsweek International. Feb. 16, 2004.

O gado esquenta o mundo

Uso de pele animal é tendência, defende presidente da Arezzo. In: Folha de São Paulo

O caos da Pelemania na Arezzo

5 Comments leave one →
  1. Renivaldo permalink
    11 de November de 2011 1:44 PM

    Luciana,
    Trabalho com reutilização de residuo de couro e estou escrevendo um projeto de pesquisa. Achei sua reportagem muito interessante. Como posso citá-la em minhas referencias biblográficas?

    Onde posso encontrar mais material sobre este tema?

    Grande abraço
    Renivaldo
    Unesp – Presidente Prudente – SP

    • 17 de November de 2011 9:19 AM

      Olá Renivaldo,

      as pessoas tem citado o blog como fonte mesmo, no modelo padrão da ABNT para referências virtuais. Eu tenho um artigo sobre couros no prelo, mas ainda não foi publicado.

      Qual o tema especificamente a que se refere? Porque sobre couros há trabalhos, mas sobre laminados ecológicos é outra história…

      Abss

      Luciana

  2. 24 de April de 2012 7:14 PM

    Obrigada Luciana! Espero que você realmente tenha gostado da matéria e, mais uma vez, desculpe pela demora.

Trackbacks

  1. Ah, a Arezzo, cada vez mais problemática… « luciana duarte . moda ética
  2. Ecobag da Arzon | luciana duarte _ moda ética

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: