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Slow fashion x fast fashion: os casos da Restaura Jeans e da Sassafrás

21 de December de 2011

LEIA ESTE POST NO NOVO MODA ÉTICA:

http://modaetica.com.br/?p=3250

Eu havia mandado uma calça cinza-claro da Sassafrás (uma das boas marcas que descobri em Divinópolis-MG, um dos maiores pólos de moda do Brasil, que atende principalmente a classe C) para ter seu botão trocado e ser tingida de preto com acabamento acetinado na Restaura Jeans de Pouso Alegre-MG.

Confesso que não esperava “grandes coisas” – porque esses tingimentos costumam ficar com cara de… ahn… tingimento!!

Diversos serviços que aumentam o ciclo de uso de uma roupa são oferecidos pela Restaura Jeans. Embora o foco seja jeans, a empresa oferece serviços como renovação de couro, costura, prega botão, lavanderia, etc.

Máás, a calça ficou linda! E com cara de nova! Custou quase 40 reais o serviço – o valor de uma caça xingling da Zara – mas justifica-se por:

  • aumentar o ciclo de uso do produto e, por conseguinte, expandindo o ciclo de vida do mesmo;
  • evitar a compra/consumo de um novo produto (incluindo evitar todos os inputs e outputs que a produção, transporte, etc. do mesmo causa)

Empolgada com o resultado, hoje à tarde levei a única mochila da Kipling que tenho – por sinal, tenho há DOZE ANOS, cujo uso é constante para carregar livro, viajar e fazer trekking e cujo macaquinho está intacto (inclusive a etiqueta com seu nome Ian) – para a Restaura Jeans.

Esse macaquinho é guerreiro e significa produto de qualidade e resistente às intempéries! E não é pra menos! O nome Kipling vem do sobrenome do autor de Mowgli (ou Mogli), o menino criado por lobos (tipo a lenda romana, heh!) numa floresta indiana. Eu li o livro no ano passado, um grande clássico! Fica a dica!😉

Essa mochila estava com um velcro velho e com dois cordões de amarração tipo saco que, quando eu trabalhei como estilista de uma certa empresa há dois anos, a costureira pilotista não conseguiu fazer o conserto (devia ser má vontade a incompetência). Cheguei na Restaura Jeans e em 15 minutos estava tudo arrumado, perfeito, e ao custo de apenas seis reais! =D

Fachada de uma Restaura Jeans

A Restaura Jeans é uma das empresas que eu gostaria de ter estudado junto a Osklen (acabou que “só” fiz pesquisa da Osklen) em 2010, mas eles não foram muito receptivos, infelizmente.

O que eu chamo atenção para esta franquia é que ela:

  • oferece diversos serviços voltados para a sustentabilidade ambiental na moda;
  • os serviços são bem executados;
  • são serviços que uma costureira amiga, da família, poderia muito bem fazer. Mas quando você mora distante de família e em uma cidade com milhões de habitantes (BH, e não Pouso Alegre né) é que nem ir a uma lanchonete de posto no meio da estrada: é preferível comer Ruffles que kibe, isto é, a gente tende a confiar em algo industrializado, com uma marca, que no desconhecido e, portanto, duvidoso. Prefiro mandar minha roupa para ser consertada pela pessoa jurídica conhecida que pela pessoa física desconhecida;
  • só tem uma franquia em Belo Horizonte, super discreta, e as pessoas do meu convívio nunca ouviram falar dessa empresa;
  • na Europa – especialmente Itália e Inglaterra – empresas especializadas em serviços de moda tem tido bastante demanda – porque é justamente a mentalidade do consumidor. Na Itália, prevalece a qualidade da roupa, as pessoas compram boas roupas (materiais resistentes e legítimos, excelente alfaiataria, corte e acabamento) e cuidam bem delas. Já na Inglaterra, o paradigma da sustentabilidade, de consumo de produtos verdes e de extensão da vida dos mesmos é o que norteia essa demanda por servisços de moda. Aliás, em relação às Fashion Weeks, ruas e capitais de moda, quem quer ver bom acabamento, vá a Milão; quem quer vanguarda, vá a Londres; sonho e a tal da “tendência” copiadíssima no Brasil, vá ver vitrines em Paris; roupa comercial, Nova York.
  • e essa empresa mal tem concorrente nesse segmento de serviços de moda…!!!! Isso é tão oportuno!!! Como diria o Roger Waters (vou ver o show dele!): Hello, is there anybody in there??

O consumidor brasileiro de moda – tão europeizado – poderia assimilar esse modo europeu: conservar os bons e velhos produtos e evitar a compra e consumo de novos.

Mas – veja bem, meu caro leitor – em tempos em que o Sebrae chega em Divinópolis e propõe o fast fashion como estratégia de diferenciação no tão competitivo mercado de moda brasileiro – assim como o itinerante Fórum de Inspirações da Assintecal já propôs no passado, em nível nacional -, norteando boa parte da produção de moda no nosso país para a produção e consumo acelerado (nem digo criação, porque desenvolvimento demanda tempo de pesquisa), pensar em slow fashion é coisa de herege.

O empresariado – que muitas vezes é pouco esclarecido mesmo – e os estilistas nossos (pesquisas sérias demonstram que copiam da Europa mesmo; fora a sociologia da moda a nosso favor nesse argumento, hello Gilberto Freyre) procuram diferenciar-se pela moda rápida, muitas vezes fundamentada em um modismo hot hot hot, efêmero, descartável. Em suma, o direcionamento de moda no Brasil visa o fast.

Vou dar um exemplo triste, mas tomem como crítica positiva.

Imagem da última coleção da Sassafrás. A produção (foto, cabelo, make, style, tratamento da imagem) “dá uma outra cara” para a roupa comum (quer coisa mais óbvia e careta que essa blusa? E o cansativo e popular floral da saia?). A aparência precede e distorce a essência, práxis da Moda, que vende mais imagem que produto, por assim dizer.

Eu nunca fui de comprar roupa (isso é um pleonasmo, né?, deu pra perceber tendo lido até aqui, rs). Talvez por isso as pessoas gostem de me dar roupa… Bem, em 2008, meu pai (que é estilista e modelista de calçados), sensibilizado com meu guarda-roupa tão enxuto, me levou a Divinópolis para eu dar uma abastecida. Comprei um sapato careta cinza (cor neutra, tão aclamada por Dior em seu Dicionário de Moda) e comprei uma calça cinza – a tal calça da Sassafrás, renovada agora – e uma camisa tipo quimono, também da Sassafrás.

O Pequeno Dicionário de Moda, escrito por Christian Dior. Excelente livro de bolso! Dior faz uma ode ao cinza, em todas as ocasiões…

Ou seja, comprei quase nada, três itens só, mais pra agradar o velho que por percepção pessoal de necessidade de roupa. Eu não preciso e não quero consumir, mesmo podendo ($$$).

Estou rodeando, mas vou chegar no caso crítico. Vamos lá:

A tal camisa, branca com frisos preto delimitando decote na frente e nas costas, de um linho muito fino, estilo quimono, é um clássico. Nunca mais sai do meu armário. Em um dos coquetéis de arte que costumo ir, esse no Museu de Arte da Pampulha, vesti-a e fui super notada. A peça é chique, diferente, elegante. E é da tal marca que eu desconhecia – Sassafrás. Aliás, confesso que tenho um ranço elitista que me faz torcer o nariz para marca pouco conhecida. Mas essa me surpreendeu pela qualidade, pela ousadia da peça em uma cidade tão pastichizada pelos babadinhos e lacinhos aqui e acolá.

Eu tenho visto essa marca crescer, aparecer, o que é muito legal. Vi-a com estande no Minas Trend Preview (o equivalente mineiro de Fashion Rio, com combo desfile e comercialização; diferente da São Paulo Fashion Week, que é desfile e fashion lifestyle). No entanto, não tem mais peça estilo a tal camisa… A marca tomou um direcionamento de moda de Prado e Barro Preto (bairros de moda em BH) e de Brás e Bom Retiro (em SP), fast, competitivo com detalhezinhos aqui e ali, sem o que me chamou atenção outrora, em 2008: ousadia, conceito e bom corte e acabamento. O estilo da Sassafrás mudou: daquilo que interpretei como criativo e delimitado no slow, para aquilo que vejo como mais uma marca de moda comum, mas das melhorzinhas. Veja uma das últimas coleções:

Existe uma ideia equivocada de que para uma marca fazer produtos slow fashion, atemporais, eles devem ser casuais, conservadores, mais no estilo norte-americano, pragmático. Entretanto, eu vejo outros dois caminhos, em relação ao vetor Estilo, além desse:

1) “Tão DIFERENTE, que sempre surpreende”, ousado, criativo, vanguarda, exploração de formas assimétricas e riqueza de texturas, bom corte, boa alfaiataria, Antuérpia, Escandinávia, arquitetura, fractal, sem estampas (a não ser geométricas OU orgânicos abstratos) – a Sassafrás de 2008 parecia que ia por esse caminho…

Roupas de Ann Demeulemeester, uma dos “Seis de Antuérpia”. São projetos de Design de Moda, de vanguarda, roupas tão diferentes, que vão demorar para sair de moda, tendem a ser muito interessantes/chamativas aos olhos dos outros, aos olhos acostumados com o comum.

2) “Modinha ordinária, mas VERSÁTIL”, aqui entram os recursos de rolotês, canaletas, velcros, botões e zíperes, configurando múltiplas propostas a partir de uma só; a masturbação da forma; modularidade; a inspiração literal das vitrines parisienses; a adapatação de fotos de roupas de outras marcas a um conceito de coleção da própria marca; a cópia – a Sassafrás que pode se diferenciar nesse caminho… Abaixo, alguns exemplos para que marcas de moda comum e fast possam transitar no universo do slow, pensando em roupas reconfiguráveis (o que rende outro post questionando a efetiva usabilidade dessas roupas 3 em 1):

Download aqui livro 99 Formas de cortar, costurar, franzir e amarrar sua camiseta, transformando-a em algo especial. Esse livro busca aumentar o ciclo de vida de uma t-shirt, e poderia ser um direcionamento de serviço proposto pela Restaura Jeans, isto é, potencializar a customização. Roupas com alto valor de estima tendem a ser transformadas/customizadas quando saem de moda – ou são guardadas como relíquias no armário.

Friso: não tenho nada contra a marca, mas sim contra o direcionamento do nosso mercado de moda – que empurra as confecções para a competição por preço, rapidez e detalhezinhos ordinários aqui e ali nas roupas. (A marca, da qual atribuo valor de estima, apenas serve como estudo de caso, mais um caso apenas).

Enquanto empresas produtoras de vestuário enfrentam concorrência cada vez mais acirrada e os produtos são, em geral, homogêneos, as empresas de serviço de moda são quase desconhecidas em nosso país. Ou seja, o slow fashion no Brasil encontra mais oportunidades no setor de serviços que de produtos.

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