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Livro: Moda e modernidade na belle epoque carioca

4 de February de 2012

LEIA ESTE POST NO NOVO MODA ÉTICA:

http://modaetica.com.br/?p=3623

No final do 2011, um dos presentes de aniversário que ganhei do namorado foi o livro “Moda e modernidade na belle epoque carioca”, da Rosane Feijão. Pra variar, fiz um fichamento e segue aqui.

Livro: Moda e modernidade na belle epoque carioca

Autora: Rosane Feijão

Editora: Estação das Letras e Cores

Sinopse: Na primeira década do século XX, uma grande reforma urbana pretendeu modernizar o Rio de Janeiro tomando Paris como modelo. Civilização e modernidade eram ideias que, naquele momento, guiavam tanto as transformações de vestuário como as mudanças no espaço físico da cidade. Tais conceitos eram veiculados pela imprensa escrita não apenas em grandes editoriais, mas também em artigos sobre moda, colunas sociais e anúncios publicitários. A obra busca mostrar que a cidade passou a exibir um estilo de vida que, mesmo influenciada por padrões europeus, já podia ser considerado como tipicamente carioca.

Bela blusa de linho (tecido eco-correto) da Farm Rio. Estilo carioca contemporâneo.

Fichamento para pensarmos em moda ética

Sobre a origem da moda, p. 41 e 42

“Por sua vez, a burguesia européia, desde a Revolução Francesa havia se empenhado em buscar modelos de prestígio, ora copiando procedimentos do Antigo Regime, adotando peças ou formas que colocavam em evidência seu distanciamento braçal, ora forjando suas próprias estratégias de distinção. Tais estratégias incluíam uma espécie de ideologia moral do bom gosto, do bom-tom, da decência, da respeitabilidade e do controle próprio, impossíveis de serem alcançados apenas pelo poder de compra. Para ter distinção não bastava ser bem-nascido ou muito rico: era preciso ter sutileza e discernimento, ser portador de certo savoir-vivre, conhecer os bons costumes, os segredos do bem-vestir e o universo infinito de suas nuances (PERROT, 1981).”

Farm Rio Alto Verão 2011. Apesar de referenciar o estilo carioca, a Farm é uma das marcas que mais atende (= vende bem, “dimais” em Belo Horizonte) ao gosto da mineira. A fonte dessa informação é uma pessoa relacionada às vendas do Pátio Savassi (daqui a pouco vamos eu o boyfriend lá pegar um cinema). O que tem demais? Detalhes bem delicados, feminilidade doce, uma pegada inocente e sexy. Em geral, pode-se dizer que a consumidora mineira gosta de se “enfeitar” – e a Farm atende bem essa demanda.

p. 45 e 46         

Segundo Gilberto Freyre (1987, p. 130),

um Brasil colônia que vinha absorvendo não poucos orientalismos, inclusive quanto aos usos das cores vivas nos trajos tanto de homens como de mulheres elegantes, essa absorção, por parte das mulheres, parecendo ter-se estendido a penteados e adornos de um modo que resistiria, em não poucos casos, à referida europeização.

É preciso lembrar que até então duas vertentes estavam embutidas nas formas de vestir aqui no Brasil: a européia e a oriental, já que provinham em grande parte de “um Portugal metrópole, ele próprio um tanto oriental no seu modo singular de não ser de todo europeu” (Idem, p. 130).”

A Cantão (cuja pegada étnica faz mais o meu gosto pessoal) também trabalha o estilo carioca e, no entanto, a loja do shopping Pátio Savassi fechou. Campanha Cantão verão 2012.

A roupa passando de uma classe para outra, de acordo com Edgar Allan Poe, em 1840, p. 84

“Ele conta, por exemplo, que enquanto “os pequenos escreventes de casas baratas (…) usavam os restos da classe alta”, ou seja, aquilo “que havia sido a perfeição do bom ton uns doze ou dezoito meses antes” (…).”

 Sobre moda masculina e Londres, p. 87 e 88

“(…) Londres, principal centro difusor da moda masculina.

Desde o fim do século XVIII Londres havia se tornado referência de comportamento masculino e, consequentemente, de vestuário masculino para toda a Europa até mesmo a França, acostumada a exportar moda e modismos, acabou por se render à chamada anglomania, termo propagado a partir da década de 1760, cuja característica principal, a simplicidade no vestir, foi adotada pelas classes dominantes de forma antes jamais vista.

Após um período de influência tanto sobre trajes femininos como masculinos nas décadas imediatamente anteriores à Revolução Francesa, a Inglaterra continuou a ser referência para esses últimos durante pelo menos todo o século XIX e começo do XX, difundindo uma simplicidade sofisticada, estudada, composta de “pequenos nadas” que faziam toda a diferença. A expressão usada por Lipovetsky (1989, p. 32) coloca em evidência a função distintiva das sutilezas na composição da aparência:

Torrentes de “pequenos nada” e pequenas diferenças que fazem toda a moda, que desclassificam ou classificam imediatamente a pessoa que os adota ou que deles se mantém afastada, que tornam imediatamente obsoleto aquilo que os precede. Com a moda, começa o poder social dos signos ínfimos, o espantoso dispositivo de distinção social conferido ao porte das novidades sutis.”

Moda masculina do século XIX

p. 91

“Chenoune faz um paralelo entre os tipos de vestimenta masculina de franceses e ingleses e os tipos de jardins desenvolvidos em cada uma dessas culturas afirma que “a rigorosa geometria clássica dos jardins à francesa” domesticava a natureza, enquanto a “charmosa desordem pré-romântica dos parques ingleses” causava a impressão de deixar a natureza seguir seu livre curso. Com isso ele sugere as divergências políticas dos dois países antes da Revolução Francesa – época em que a Inglaterra já contava com um parlamento forte, enquanto a França ainda vivia sob o Absolutismo.”

Moda masculina século XX.

p. 92, 93 e 94

J. C Flügel acreditava que os homens teriam passado a procurar mais a praticidade e a “correção” do que a beleza ao elaborarem sua aparência. Em seu livro The Psicology of clothes (1930) o psicanalista inglês denominou essa opção de “a grande renúncia masculina”:

[…] os homens abriram mão de seu direito às formas mais claras, alegres, elaboradas e mais variadas de ornamentação, deixando-as inteiramente para as mulheres, tornando assim seu próprio vestuário a mais austera e ascética das artes. Em termos de moda, esse acontecimento certamente deve ser considerado “A Grande Renúncia Masculina”.

Flügel se referia à mudança drástica que se efetuou no vestuário masculino após a Revolução Industrial, quando os homens da aristocracia substituíram os trajes ricamente ornados e coloridos, típicos da vida de corte, por outros, mais sóbrios e austeros, de preferência escuros. A renúncia a que faz alusão é a fantasia no vestir, afastando os homens de um mundo considerado superficial e fútil, tornado, a partir de então, domínio exclusivamente feminino

E aqui também, moda masculina do século XX.

É sem dúvida uma concepção que reflete uma nova cultura masculina, fundada por homens que construíram sua posição na sociedade não mais por meio da hereditariedade de títulos de nobreza, mas em função de talento, competência e trabalho:

O traje masculino neutro, escuro, austero, traduziu a consagração da ideologia igualitária como ética conquistadora da poupança, do mérito, do trabalho das classes burguesas o vestuário precioso da aristocracia, signo de festa e do fausto, foi substituído por um traje que exprime as novas legitimidades sociais: a igualdade, a economia, o esforço. Espoliação dos homens do brilho dos artifícios em benefício das mulheres, estas sim destinadas a dar continuidade aos símbolos de luxo, de sedução, de frivolidade (LIPOVETSKY, 1989, p 91).”

p. 96, Machado de Assis em “O capítulo dos chapéus”

“E conclui: “(…) pode ser até que nem mesmo o chapéu seja complemento do homem, mas o homem do chapéu”. (ASSIS, 19997, p. 403).

p. 100

“Simmel (1987, p. 16) denomina tal comportamento de “atitude blasé”, uma forma de “reserva” que a vida metropolitana tornou necessária:

o aspecto interior dessa reserva exterior é não apenas a indiferença, mas, mais frequentemente do que nos damos conta, é uma leve aversão, uma estranheza e repulsão mútuas, que redundarão em ódio e luta no momento de um contato mais próximo, ainda que este tenha sido provocado.”

Sobre um rico-rico, blasè, non-chalant, a elegância desinteressada no status, que a Osklen transmite no estilo, p 104

“A possibilidade de se diplomar em Medicina, a ida a um evento elegante e o traje muito bem cortado caracterizam a personagem em questão como membro da elite, cuja distinção era garantida não apenas pelo luxo com que se vestia, mas pela atualização impecável com a moda, aí incluídas a postura descontraída e a bem dosada ousadia.”

Terno de moleton da Osklen, marca que também trabalha o estilo carioca (ou como eles preferem dizer, o estilo de Ipanema, boêmio, nonchalant, chique, cool).

Sobre o terno do malandro, p. 106

“A polêmica sobre a substituição da sobrecasaca preta pelo paletó branco está diretamente relacionada com o papel do homem nas sociedades modernas e com o padrão europeu na constituição das aparências burguesas. Na Europa, desde a década de 1890 os ternos brancos ou muito claros, de tecidos leves como o linho e a flanela, eram usados exclusivamente nas férias de verão, nas praias e estações termais, acompanhados de chapéu palheta ou canotier. Como não era uma roupa com a qual se ia ao trabalho, talvez por isso tenha ficado associada, mais tarde, ao malandro carioca, que Schwarcz (1994, p. 12) descreve como ligado “à falta de trabalho, à vagabundagem e à criminalidade potencial”.”

Professor Carlinhos de Jesus: o paletó branco do malandro e o chapéu de sambar.

p. 114

“Outra influência partiu das artes aplicadas. Pode-se perceber uma relação clara entre a silhueta feminina e o estilo art nouveau por volta de 1900.”

Ilustração, Vogue, Art Nouveau.

p. 116

“Desde meados do século XIX os jornais haviam instaurado um caloroso debate acerca dos prejuízos à saúde causados pela moda. Havia preocupações de fundo moral e higiênico que causaram grandes polêmicas, principalmente em relação ao uso do espartilho, responsabilizado por causar verdadeiras tragédias a muitas famílias alguns manuais de etiqueta e civilidade chegavam a apresentar dados relativos às mortes causadas por ele de forma a sensibilizar o público quanto à nocividade de seu uso (RAINHO, 2002)

Mas não eram apenas os espartilhos a torturar o corpo. As botinhas fechadas de bico fino com cadarço, muito estreitas e com saltos comprimiam fortemente os pés daquelas que almejavam elegância.”

p. 127

“[…] o bronzeamento exprimirá no século XX exatamente o que a ‘pele de leite’ exprime no século XIX: a ociosidade, ou seja, a capacidade econômica de dilapidar tempo ‘sem fazer nada’ e a ostentação dessa improdutividade gratificante”.

Helô Pinheiro (mãe da Ticiane Pinheiro, casada com Roberto Justus, do Aprendiz, etc.), a legítima garota de Ipanema de Tom Jobim. Bronzeado destacado por um blazer branco. Pra quem tá na dúvida, fique sabendo que é ela mesma a famosa musa de “Garota de Ipanema”, música-ícone de nossa Bossa Nova..

p. 143

“É possível tornar-se rico, mas para ser elegante é preciso nascer elegante”.

Croqui Lenny verão 2012.

p. 153

“O gosto pelos esportes favoreceu uma grande mudança nos padrões de beleza naquele início de século. Para os rapazes, o tipo franzino e pálido do período romântico, que Luiz Edmundo (1957, p. 831) descreve como “uma geração de fracos e enfezados, de lânguidos e de raquíticos”, já não agradava mais tanto quanto os que ostentavam seus músculos nas competições esportivas, vestidos com roupas leves e curtas, coladas ao corpo. Para as mulheres, as faces coradas transmitindo a ideia de saúde substituíram os tons macilentos e até esverdeados cultivados durante o século XIX. O corpo se tornou mais dinâmico, e a moda feminina acompanhava essas transformações, abandonando as estruturas pesadas e constritoras que haviam moldado a silhueta nos últimos cinqüenta anos. O movimento e a respiração, até então limitados pelo uso do espartilho, foram incentivados e desenvolvidos pelas normas higienistas que tornaram a educação física obrigatória nas escolas.”

Lenny verão 2012 – convite para gringo ver a moda carioca e brasileira.

p. 158

“A mesma lógica foi seguida para o uso do espartilho como era impensável uma mulher apresentar-se em público sem essa peça moldando-lhe a cintura, modelos especiais para o banho foram fabricados durante a primeira década do século XX. Após a Primeira Guerra, na década de 1920, boa parte de tudo isso já tinha sido abandonado: maiôs inteiros e colantes passaram a ser vestidos diretamente sobre a pele, e as toucas, embora continuassem a ser usadas, tinham uma função mais ligada à estética que à moral.”

Vinicius de Moraes e Helô Pinheiro, The Girl from Ipanema.

p. 165

“A carioca tem no vestiário a sua roupa de banho. A carioca adestrou-se a caminha na areia com a mesma airosa elegância com que caminha no asfalto. A vida da praia está exercendo sobre ela uma influência que se faz sentir nas suas ideias e nos seus sentimentos, na sua compleição física e até moral. A praia, desviando para o convívio da natureza a população da cidade, a está poderosamente vitalizando e insulflando-lhe alegria.” *

*Citado por Cláudia Braga Gaspar (2004, p. 50).

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