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Entrevista sobre Moda, Sustentabilidade e Engenharia de Produção + Louis Vuitton s/s 2012

17 de April de 2012
The Louis Vuitton carrousel. Engrenagens em movimento contínuo: a engenharia permite que a moda não pare.

The Louis Vuitton carrousel. Engrenagens em movimento contínuo: a engenharia permite que a moda não pare.

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http://modaetica.com.br/?p=4193

Entrevista para Trabalho de Conclusão de Curso da Engenharia de Produção da UFMG

Grazielle Caria

Luciana Duarte

Qual o seu histórico na indústria de moda? Como iniciou o interesse nessa área e no que você atua hoje em dia?

Embora a Moda sempre tenha sido algo familiar (meu pai é estilista e modelista de calçados; minha mãe teve uma confecção de vestuário infantil), essa área não me interessava. Eu iniciei em 2007, no âmbito acadêmico (no primeiro semestre da graduação em Design de Produto na UEMG), pesquisas sobre moda ética (ethical fashion). Tentando responder a pergunta sobre “como que algo que é moda pode ser ético?”, enveredei pela sustentabilidade como possível resposta e criei um blog (que atualmente, é referência no assunto, tendo como leitores estilistas renomados e pesquisadores internacionais) para compartilhar parte das pesquisas. Durante o ano de 2009, trabalhei como assistente de estilo e, posteriormente, como designer de moda, na empresa Raiz da Terra, voltada para moda ecológica. Em 2011, fui selecionada como bolsista REUNI para lecionar no curso de Design de Moda da UFMG e, desde então, oferto a disciplina optativa de Moda e Sustentabilidade. Tenho publicado diversos artigos sobre a relação da moda com a ética da sustentabilidade em diversas áreas do conhecimento, como engenharia, design e psicossociologia. Tentar compreender a moda ética passou de meras desconfianças para um objeto de estudo e um assunto apaixonante.

Você já teve a oportunidade de atuar ou pelo menos teve algum contato próximo com alguma empresa da área de moda? Se sim, com quais etapas você teve maior contato?

Sim, como disse na resposta anterior. Tive mais contato com as etapas de pesquisa de moda, desenvolvimento de produto e planejamento e desenvolvimento de coleção.

Cavalo branco sem expressão, engessado, adornado com lenço verde Louis Vuitton.

Cavalo branco sem expressão, engessado, adornado com lenço de cor verde Louis Vuitton. O carrossel nos diz: entre no ciclo e adorne-se.

Você poderia descrever o fluxograma de produção em moda desde a concepção da peça até o mercado, a partir de sua experiência?

Depois de projetada, modelada, infestada e cortada, a peça de roupa é: 1) costurada pela pilotista (designação da profissional que costura a primeira peça), essa etapa chama-se “pilotagem”; 2) a peça é então provada por uma “modelo de prova” (uma garota magra que vai a empresa especificamente para provar as roupas), essa etapa chama-se “prova [de roupa]”; 3) caso a roupa não sirva bem na modelo, são feitos ajustes, e a roupa pode passar novamente pela etapa de projeto (no caso, redesign); certamente passará pelas etapas de modelagem, infesto, corte e nova pilotagem; 4) tendo como certa a pilotagem, as próximas etapas dependem do modelo de negócio da empresa, se de atacado e/ou varejo, se de prêt-à-porter/ready-to-wear e/ou se atende a pedidos personalizados. Mediante pedido do cliente/lojista (caso do atacado) ou para ofertar um número x de peças em loja própria (caso do varejo), as peças pilotadas são levadas para as costureiras terceirizadas (chamadas faccionistas) e/ou empresas terceirizadas (chamadas facção), que é a etapa de “costura” propriamente, seguindo ; 5) em tese, haveria um “controle de qualidade” das peças costuradas e não apenas a garantia do fornecedor; 6) as roupas são “embaladas”; 7) são armazenadas no “estoque”; 8) é feita a “distribuição” para a loja própria e/ou lojas multimarcas e/ou pessoas físicas (como no caso de uma compra em site); 9) uma vez que as peças chegam ao consumidor final, etapa de “uso”, as mesmas, caso apresentem defeitos, poderão retornar à empresa (por meio do SAC, do próprio lojista e/ou do serviço de correios), para que seja feita uma avaliação do defeito e, talvez, uma substituição da peça defeituosa.

Louis Vuitton spring/summer 2012.

Louis Vuitton spring/summer 2012. Tons pasteis subversivos em formas amplas. Mules, calçados propositadamente difíceis de andar, especiais para quem não precisa andar: os papas usaram, a nobreza usou, as madames usam. Para chegar até esses produtos, muita coisa aconteceu antes, na fábrica e na história.

Pela sua experiência na área, quais são os principais problemas enfrentados no processo produtivo da indústria da moda?

O diálogo entre o designer e o modelista e a costureira pilotista. Porque eles podem compreender equivocadamente o desenho (técnico e/ou croqui), não tirarem dúvidas com o designer e fazer algo absolutamente diferente das especificações técnicas. Logo, o designer deve ficar próximo desses profissionais, muitas vezes ocupando um espaço de auditoria do produto, no momento de sua confecção, que caberia ao gerente de produção.

Outro problema comum é o feedback de vendas. A equipe de vendas não passa, ou passa de forma parcial, a informação de quais peças foram mais vendidas e quais peças interessaram mais aos clientes. Essa informação é imprescindível para desenvolver a próxima coleção. É preciso criar, nas empresas de pequeno e médio porte, uma forma de coletar essa informações de modo preciso e rigoroso.

Resumindo a resposta: o problema de recebimento, compreensão e feedback de informações.

Quem é a mulher que nós, designers de moda e estilistas, vestimos, se não uma ideia de mulher?

Quem é a mulher que nós, designers de moda e estilistas, vestimos, se não uma ideia de mulher? Quem é essa mulher para o designer, o fabricante, o engenheiro de produção, a vendedora e a lojista? 

Você conhece os campos de atuação da Engenharia de Produção? Se sim, você acredita que ela possa auxiliar no sentido de trazer melhorias para o processo produtivo da indústria da moda? Como?

Por estar cursando um mestrado em Engenharia de Produção, conheço os campos de atuação e sim, acredito que ela possa trazer melhorias para a moda: definindo melhor o fluxo produtivo, as interações interdepartamentais, o fluxo de informações, a otimização do recebimento de informações do Design, o estreitamento das relações com as empresas terceirizadas (especialmente na cobrança de fornecedores e na roupa pronta por parte das costureiras), a definição dos materiais a serem transformados em produtos, a implementação de softwares especializados (ex. Audaces, um CAD para modelagem), o treinamento dos funcionários para compreensão de normas e desenhos técnicos, assegurar-se de uma etapa final de controle da qualidade e diversas melhorias em relação à Ergonomia. A Engenharia de Produção é bastante abrangente; essas possibilidades de melhoria que mencionei são apenas algumas, mais emergenciais, pensando nas pequenas confecções brasileiras.

Através de observações de uma empresa de moda real, eu levantei os seguintes problemas: mau dimensionamento da compra de matérias-primas; problemas de layout no espaço de trabalho (a sequencia dos postos de trabalho não reflete a sequencia do trabalho em sim), falta de planejamento das atividades (gerando retrabalho, peças em estoque aguardando a finalização de bordados e estampas para dar prosseguimento à produção, não é feita uma pesquisa de mercado a fim de definir quantas peças devem ser produzidas) e questões ergonômicas (posto de trabalho inadequado à atividade e condições de trabalho precárias). Você acredita que eles podem ser considerados como específicos da empresa observada ou podemos considerá-los como algo comum a outras empresas?

Acredito que são problemas comuns das pequenas confecções de vestuário no Brasil. Resultados de pesquisas realizadas (ABRAVEST, IEMI, SEBRAE apud RECH, 2002), apontam o setor de confecção de produtos de moda ainda carente de qualificação. Tais pesquisas indicam que 87% são empresas de micro e pequeno porte; 60% desconhecem normas técnicas; 73,3% nunca utilizaram sistemas CAD; 53,3% dos responsáveis pelo desenvolvimento de produto são sócios ou família; em relação à definição da metodologia de desenvolvimento de produto, 33,3% afirmam que sim, possuem uma metodologia, já 33,3% que não possuem, enquanto que 26,7% dizem que a mesma encontra-se em elaboração e 6,7% não responderam.

Referência

RECH, S. R. Moda: por um fio de qualidade. Florianópolis: UDESC, 2002.

Luzes verdes são lançadas no carrossel.

Luzes verdes são lançadas no carrossel.

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