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Estética de bumba-meu-boi + as identidades tropicais + se joga e arrasa!

23 de September de 2012

LEIA ESTE POST NO NOVO MODA ÉTICA:

http://modaetica.com.br/?p=5293

É lugar comum jovens estilistas buscarem inspiração para suas coleções em uma identidade-padrão do Brasil. Como se houvesse algo elementar, algo que é a cara do Brasil (como futebol, caipirinha e biquíni fio-dental). Olham para as manifestações populares, da cultura local, olham para algo já fixo como de identidade brasileira – tal o bumba-meu-boi, a folia de reis, etc. Há um imaginário consolidado – tal uma ideia fixa! – de uma identidade tropical fundamental (Gilberto Freyre contribuiu muito para esse pensamento).

Contudo, todavia e entretanto, há identidadeSSS, há pluralidade, múltiplas facetas, múltiplas formas de olhar um mesmo objeto, uma mesma manifestação cultural. A identidade é um vetor entre quem olha e o que é observado; ela se constrói com o objeto e com o olhar do observador (há muitos autores que falam sobre isso).

Um erro comum de jovens designers de moda (ou jovens estilistas) é se fixarem em uma ideia de identidade tropical já engessada. E aí caminham para o folclore, os índios (que desde o Romantismo nacional representa um ideal brasileiro), personagens como o sertanejo (tão bem descrito por José de Alencar em “O sertanejo” e Euclides da Cunha em “Os sertões”), as praias, as araras azuis (e todo o rol da fauna mais emblemática/típica), a vegetação (onde a strelitzia é a rainha soberana das coleções), a sensualidade (explorada em babados, fluidos, fendas, cintura marcada, decotes, costas cavadas, calças justas, saltos altos), etc.

O exotismo que seduz. Essa é a cara que dão para o Brasil. Mas o exotismo seduz há séculos qualquer “Maria do Bairro”. Para citar as primeiras referências, vamos lembrar do estilista Paul Poiret e o Japão no início do século XX. Vamos lembrar dos têxteis europeus, na época do mercantilismo, influenciados pela Índia, Egito e Oriente Médio em geral.

Paul Poiret seduzido pelo exotismo do japonismo expressa um quimono europeizado.

Paul Poiret seduzido pelo exotismo do japonismo expressa um quimono europeizado.

O maior erro é crer que o que o objeto observado (qualquer aspecto de brasilidade, qualquer recorte pertencente ao Brasil) é algo imutável, algo que parou no tempo e no espaço.

Ora! As coisas estão a se transformar. Não só a identidade são várias porque várias pessoas (designers!) olham diferentemente para um mesmo objeto, como também este objeto está a se transformar pelas diversas circunstâncias que o tangencia (a strelitzia é cultivada hoje nos jardins de donas-de-casa; já não é planta rara numa imagem de Debret; ou seja, a sociedade muda, a devastação extingue, a economia melhora, a desigualdade piora, o tempo passa, etc.).

É justo que estilistas brasileiros falem com propriedade (no duplo sentido) do Brasil em seus trabalhos. O que se questiona é uma certa timidez (ou ignorância/alienação/comodismo de pensar no fluxo de ideias já estabelecidas / medo de errar) dos jovens designers de moda ao transmitir aspectos de brasilidade em suas coleções.

E como deveria ser?

Para os que pensam que a moda fala do presente, que a moda transmite o comportamento do momento, deveriam falar do Brasil de hoje. Como se fosse fácil perceber o que se mostra agora-agora neste momento (como diria Clarice Lispector)! Como se fosse fácil dar uma resposta afiada no exato segundo em que se ouve uma ofensa! Não é fácil. É preciso estar atento, desperto, lúcido, bem informado, não se acomodar nunca. O designer é um desinquieto, um desassossegado (tem um desassossego mineiro do Guimarães Rosa).

Para os que pensam que a moda fala do futuro, que ela traz o Novo (pra usar com maiúscula, como Lipovetsky o faz para designar o que é o caráter de novidade e experiência de liberdade de algo mercantilizado), há de se imaginar, há de se criar esteticamente uma (ou muitas) identidade(s). Como é o Brasil que vai vir a ser? Como fazer com que a vida queira imitar a arte? O que eu desejo ser enquanto sujeito neste território?

Eu penso que as duas possibilidades são igualmente desafiantes.

Nestes dias em que acontece a IV Bienal de Design (uma obra minha será exposta de 15 a 23 de outubro na Serraria Souza Pinto, em BH), que tem como tema a Diversidade Brasileira, nada mais oportuno do que a gente se colocar a exercitar o olhar e a imaginação sobre as várias identidades brasileiras, que são formadas por vários objetos e por diversos olhares.

Proponho o seguinte exercício:

1) a seguir, constam fotos que tirei em São Luís do Maranhão, que retratam a dança típica do Bumba-meu-boi. Observe bem o tema, os símbolos, as cores, a modelagem, etc.

2) tente fazer três looks baseando-se na estética do Bumba-meu-boi:

  1. literal, preguiçoso, reiterando o que já existe, emprestando as cores e formas já existentes para um desenho clichê;
  2. pesquise o que está acontecendo com o bumba-meu-boi hoje, como surgiu, porque é assim, porque faz tanto sucesso no Maranhão, porque transmite exotismo para os gringos (será que é por causa das mulatas que dançam? será por causa da alegria? será o som dos tambores? os passos de índios? um aspecto ritualístico? um ritual visual que une quem observa com quem dança? unifica etnias?);
  3. o que o Bumba-meu-boi pode trazer de Novo para a Moda? Como esse aspecto de brasilidade transmite aquilo que eu quero usar mas ainda não o sei hoje? Como expressar a minha relação com o meu território no futuro? E por aí vão os questionamentos…
Iniciam-se os preparativos...

Iniciam-se os preparativos…

... os dançarinos ocupam seus lugares.

… os dançarinos ocupam seus lugares.

Um caboclo, cafuso, mameluco, índio, sertanejo, escravo, holandês, português...

Um caboclo, cafuso, mameluco, índio, sertanejo, escravo, holandês, português… Descalços, isto é, sem a dignidade do calçado, como eram os escravos africanos no Brasil que, por mais que estivessem bem vestidos, invariavelmente estavam descalços.

Os bois!

Os bois!

Eu olhava a dança e todo meu corpo sentia vontade de dançar, era um magnetismo muito forte: preciso participar desse ritual de alegria!

E aí eu fui! Sem medo, diante de uma plateia de engenheiros.

Muita atenção no começo!

Muita atenção no começo! Vi que tinha uns passos de salsa e de samba, duas coisas que aprendi nas aulas de dança há mais de 10 anos…

Tal uma Sailor Moon empunhando o cetro lunar, ao receber o bastão da dança, me senti poderosa (além de muito feliz)!

Tal uma Sailor Moon empunhando o cetro lunar, ao receber o bastão da dança, me senti poderosa (além de muito feliz)!

Radiante de felicidade! =)

Radiante de felicidade! Dançar bumba-meu-boi foi um dos momentos mais felizes da minha vida! =)

Colar da Mary Design, regata de ribana de algodão convencional da Hering, saia de linho e viscose comprada em Monte Sião (sei lá que marca) e rasteira com strass comprada numa loja dentro de um supermercado (vamos ver quanto tempo vai durar...). Não, não é 100% ecológico. A gente tenta, contudo, um estilo mais clássico, cores neutras com pouco tingimento, uma modelagem mais básica, enfim.

Colar da Mary Design, regata de ribana de algodão convencional da Hering, saia de linho e viscose comprada em Monte Sião (sei lá que marca), cinto doado pela mãe, anel de Murano (presente da vó de ex que foi pra Itália) e rasteira com strass comprada numa loja dentro de um supermercado (vamos ver quanto tempo vai durar…). Não, não é 100% ecológico. A gente tenta, contudo, um estilo mais clássico, cores neutras com pouco tingimento, uma modelagem mais básica, enfim. E barato: blusa, saia e sandália, cada um custou menos de 40 reais e coube no orçamento estudantil, rs. – Mas, com tanto laranja, amarelo e dourado, quem se interessaria por cores pálidas? Aliás, a crítica é: até quando o interesse pelo que “blogueiras de moda” vestem quando há tanta roupa mais interessante para ser vista e compreendida? Vamos questionar a nossa curiosidade pelas coisas! De onde veio a roupa da dançarina? Essas penas são verdadeiras ou sintéticas? Quanto custou? Ela usa essa roupa em quais ocasiões? Por que é assim? A dançarina acha que sua roupa deveria ser de outro jeito? Qual?

Da esq. p/ dir.: a moça desbotada que lhes escreve, uma bela dançarina de bumba-meu-boi e minha colega de doutorado em engenharia de produção. Como se pode ver, esbanjamos seriedade e cumprimos todas as formalidades do VII Congresso Nacional de Engenharia Mecânica.

Da esq. p/ dir.: a moça desbotada e “sem medo de ser feliz” que lhes escreve, uma belíssima dançarina de bumba-meu-boi e minha colega de doutorado em engenharia de produção na UFMG. Como se pode ver, esbanjamos seriedade e cumprimos todas as formalidades do VII Congresso Nacional de Engenharia Mecânica.

E bem, para encerrar a ópera: desenhe, crie! Não fique com vontade de dançar! A melhor sensação é a de quando a gente percebe que leva jeito em alguma coisa diferente e inesperada! Como disse um ator para minha irmã, segundos antes de ela prestar uma prova de palco na Unicamp – uma frase muito forte e que entrou para nossa história fraternal quando nos deparamos com situações de imprecisão, desconhecimento e insegurança:

– Se joga e arrasa!!!

(Claro que a concordância verbal correta, no imperativo, seria “se jogue e arrase”, mas nesse caso, melhor seria escrever “ahaza”, digno de quem é livre para escolher ou inventar até mesmo o próprio gênero).

Boa semana e até outubro!😉

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