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Parte 02: o processo criativo

19 de October de 2012

LEIA ESTE POST NO NOVO MODA ÉTICA:

http://modaetica.com.br/?p=5535

Dando continuidade ao post Parte 01: a proposta da cadeira, agora conto como foi tirar leite de pedra, digo, fazer sopa de pedra, quero dizer, como foi o processo criativo da cadeira que fiz para a IV Bienal Brasileira de Design.

Bem, os ingredientes eram:

  • uma cadeira de madeira sem acabamento
  • um montão de retalhos de jeans

Como colocar os jeans na cadeira?

E, mais importante: o que dizer com isso? Qual o conceito? Qual a ideia?

Rascunhos regados com uma caninha mineira.

Rascunhos regados por uma caninha mineira.

Exercício básico de projeto de produto: o conceito é viabilizado por uma inspiração (a qual só vem depois dos 99% de suor).

Eu já venho há mais de ano pensando/suando, com colegas designers e com colegas químicos, como processar os retalhos, como reduzir o impacto ambiental desse grande volume de resíduos sólidos de confecções.

Amigos designers de produto experimentando processos com retalhos.

Amigos designers de produto experimentando processos com retalhos; início de 2012.

A inspiração, que veio durante a geração de alternativas (etapa de desenhar bastante) foi uma grávida que casa às pressas para esconder o inevitável barrigão. Há uma questão moral nisso.

Noiva grávida.

Noiva grávida.

– Essa inspiração viabiliza o conceito de resíduos sendo escondidos (no lixo!) pelas empresas. Não dá mais para esconder (temos legislação criminalizando desde 2010, junto a Política Nacional de Resíduos Sólidos) esse fato. Então o processo convencional (linear) de produção deve unir-se com seu lixo (tornando-se um processo cíclico). Há uma questão ambiental nisso.

Bem, eu expliquei isso melhor da seguinte maneira, conforme enviei a ideia e um sketch para aprovação.

Artista_

Luciana Duarte

Nome da cadeira_

Adivàrg

Ideia principal pretendida no trabalho_

O objeto proposto (cadeira) une-se (casa-se) com seus não-objetos (resíduos da produção da cadeira e de seu estofamento sugerido em jeans). O objeto expõe os não-objetos e vice-versa, explicitando os resíduos dos processos produtivos, os quais são majoritariamente destinados ao lixo.

Sobre as formas: 1) o estofamento coloca-se no inverso do assento, subvertendo a ordem do conforto, mostrando um pensamento invertido; remete a um útero que gesta seus resíduos (pois da carne, surge a própria carne); 2) as formas encaracoladas do tule com os resíduos (de jeans e madeira) assemelham-se às conchas (abrigos) de moluscos, cujas formas circulares remetem a um possível sistema industrial protetor de seus resíduos, um sistema cíclico, não-linear.

O tule, como um véu de noiva, mostra a delicadeza dessa união que é frágil (pois ao manusear a cadeira, suas partes se desfazem). O objeto “noiva” casa grávida (o feto, invisível, de resíduos, é o ser e o não-ser) com os não-objetos “noivo”, mostrando que opostos se atraem, que resíduos industriais devem ser atraídos para indústrias – e não para lixos.

Sketch técnico demonstrando a ideia da cadeira.

Sketch técnico demonstrando a ideia da cadeira.

Não era o caso de enviar um render bonitão. Então, um sketch que desse para entender, bastava. Nesse desenho, eu mostro as dimensões (não podiam ultrapassar dois metros para os três eixos) e os materiais:

  • jeans triturado (uma técnica que custei para desenvolver, utilizando um moinho de facas destinado a moer sementes e folhagens, já que é muito difícil triturar retalhos em pequena escala, isto é, sem uma desfribadeira/desfibraleira, a máquina apropriada para reciclagem têxtil);
  • jeans retalhado, ou seja, cortado;
  • tule;
  • madeirela (que é uma serragem bem miúda);
  • e látex da seringueira para colar os materiais supracitados.

E ainda usei uma tela aramada de plástico (sim, foi necessária uma “muleta”), que deu o que fazer encontrar no centrão de Belo Horizonte.

No próximo post, conto como processei tudo.

Da geração de alternativas, escolhemos os melhores conceitos (expressados em desenhos) e desenvolvemos um desenho.

Da geração de alternativas, escolhemos os melhores conceitos (expressados em desenhos) e desenvolvemos um desenho.

Um sketch mais refinado, já expressando a ideia escolhida.

Um sketch mais refinado (porém ainda bem esquemático), já expressando a ideia escolhida.

A cadeira está exposta na Serraria Souza Pinto (Belo Horizonte) até dia 23/10. Entrada franca para ver em torno de 200 cadeiras “designosas” da IV Bienal Brasileira de Design.

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