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Drops de Flusser

28 de October de 2012

LEIA ESTE POST NO NOVO MODA ÉTICA:

http://modaetica.com.br/?p=5639

Segue um breve fichamento que fiz sobre O Mundo Codificado, do Flusser, que está na moda já há alguns anos (como dissemos no post Flusser na moda). Serve para a gente pensar em uma ética no design…

Forma de bolo em que todos os pedaços tem bordas!

Forma de bolo em que todos os pedaços tem bordas!

Forma e material

Flusser contesta o termo cultura imaterial. A matéria é ilusão, estofo. Já a forma é a realidade. O material é farsa, só existe quando preenche a forma. A matéria é conteúdo, a forma continente. O material é transitório, a forma é eterna, pois pode ser imaginada sempre.

Apesar de ser eterna, a forma nunca é realizada perfeitamente. Ela sofre deformações quando é trazida à realidade.

No mundo o movimento aparente e os fenômenos são o material e a forma são as formulas que descrevem estes fenômenos. A ciência projeta modelos para enquadrar os fenômenos.

“A forma é o como da matéria e a matéria é o quê da forma”. A matéria aparece como forma e a forma aparece preenchida de matéria.  O design é o modo como as formas vão aparecer. Ele projeta as formas.

Antes, o objetivo era formalizar o mundo existente, hoje, o objetivo é projetar formas para criar mundos alternativos. É isso que se entende por cultura imaterial, mas deveria ser chamada de “cultura materializadora”.

A questão é: até que ponto podemos preencher as formas que criamos com material? Até que ponto elas são operacionais e produtivas.

Entre forma e material há uma relação, não uma oposição. Um complementa o outro.

Monastério em Burma.

Monastério em Burma.

A fábrica

O autor identifica o “homo-faber” como aquele que fabrica artefatos. A história da humanidade pode ser entendida pelo processo de evolução das fábricas. As características do homem podem ser identificadas pelas suas fábricas. Então, para saber como será o homem do futuro, é só imaginar a fábrica do futuro.

Flusser divide os períodos da fabricação em quatro:

  • o das mãos;
  • o das ferramentas;
  • o das máquinas;
  • o dos aparelhos eletrônicos.

Fabricar é apoderar-se, converter, dar aplicabilidade e utilizar. Para fazer isso possível, as máquinas imitam o trabalho mecânico do homem e os aparelhos eletrônicos imitam o trabalho neurofisiológico.

O termo “homo-faber” só atinge total dignidade na fábrica-escola. Local de contemplação e da perda dela também.

A fábrica do futuro é o lugar onde o “homo-faber” se converterá em homo sapiens sapiens, porque reconhecerá que fabricar é o mesmo que aprender, isto é, adquirir informações, produzi-las e divulgá-las.

A alavanca contra-ataca

A discussão em “A alavanca contra-ataca” parte do fato de que “as máquinas são simulações dos órgãos do corpo humano”. Flusser cita a alavanca (uma simulação do braço humano) como um exemplo explícito deste fato. Mesmo possuindo uma constituição mais estúpida que a do braço, ela pode chegar mais longe e carregar cargas mais pesadas.

Depois de uma breve análise da evolução das máquinas feitas como simulações da estrutura mecânica do homem até antes do século XX, o autor conclui que o homem viveu servindo às máquinas. Máquinas que foram criadas para servir a ele.

A próxima estrutura humana a ser simulada é o sistema nervoso. As máquinas são cada vez mais dotadas da chamada inteligência artificial. Pensando no contra-ataque das máquinas, Flusser pergunta: como as máquinas vão golpear quando se tornarem mais espertas?

O autor descreve este contragolpe como uma “imitação dos imitadores” , como exemplo diz que mexemos nossos braços como alavancas. Será que pensaremos como máquinas? “Esse é um problema de design: como devem ser as máquinas para que seu contragolpe não nos cause dor?”

Uma fábrica qualquer.

Uma fábrica qualquer.

A não-coisa [1]

Flusser inicia o texto dizendo que, há pouco tempo, o nosso mundo era composto de coisas e que “orientar-se nele significava diferenciar as coisas naturais das artificiais” (52). Uma tarefa difícil, pois qualquer classificação das coisas é muito limitada apresentando lacunas e imprecisões. O autor descreve a vida como uma caminhada ao encontro de problemas (coisas). Quando a coisa não era solucionada se morria por causa dela.

Isso mudou. Hoje o mundo é ocupado também pelas não-coisas, as informações. Especialmente as informações imateriais. A sobrevivência se tornou mais difícil. Cada vez mais se quer consumir informações em vez de se possuir coisas. Essa nova cultura das não-coisas gerou uma nova lógica influenciadora até nas relações imperialistas. Domina o país que dispuser de melhores informações. Mesmo nesse novo mundo  das não-coisas, se morre por problemas insolúveis. Sendo eles coisas ou não-coisas.

A triatleta amputada Sarah Reinertsen.

A triatleta amputada Sarah Reinertsen.

A não-coisa [2]

A capacidade do homem de apreender as coisas e modificá-las com as mãos e seu polegar opositor, dividiu o mundo em dois. O mundo da natureza e o mundo da “cultura”. As coisas vão de natureza a cultura, de cultura a natureza e de natureza a lixo. Um ciclo vicioso. A cultura imaterial foge disso. Ela produz não-coisas que são apenas armazenadas. Essa cultura é de uma memória crescente, em expansão.

Junto a essa cultura imaterial veio a desvalorização das coisas e dos trabalhos geradores de coisas e a extrema valorização das não-coisas e dos trabalhos geradores de não-coisas. A importância que era das mãos hoje é dos dedos, produtores de não-coisas. O dedo pressiona um botão. Botão esse que pode tanto tirar, como matar milhões.

Vem também junto a essa nova cultura uma nova divisão de classes: a dos programadores e a dos programados. A classe do futuro é dos programadores programados. Os que programam dentro das opções de outro programa programado por outro programador que programou dentro das opções de outro programa. Isto não tem fim.

Rodas

O ensaio reflete sobre a suástica, um símbolo de extrema significância. Se o símbolo em questão for lido, passa a ideia de irradiação. Tendo a suástica como uma espécie de roda, Flusser atenta para a progressiva desaparição das rodas. Estas ocupam cada vez menos importância na nossa vida como objetos. Estão fadadas a se tornar apenas símbolos. O autor faz uma analogia da roda com o ciclo solar que comanda a existência da vida. Uma roda muito importante.

Durante muitos anos se tentou ir contra a grande roda, a roda do destino, mas todas as tentativas falharam. O que deu certo foi o aproveitamento da força da roda do destino em favor das pretensões humanas. Flusser diz que aí se dá inicio à história. A roda do progresso. Esta roda inanimada só prossegue porque é impulsionada pelos homens, mas a força destes já não é tão necessária para mantê-la em movimento.

Como a roda do progresso agora se move sem a ajuda dos homens, se faz necessária a reflexão sobre o motivo pelo qual a colocamos em movimento inicialmente. Antes que sejamos atropelados por ela.

Hugo Boss fornecia uniformes para os nazistas de Hitler.

Hugo Boss fornecia uniformes para os nazistas de Hitler.

Sobre formas e formulas

Deus criou, cientistas descobrem os seus segredos e os designers tentam imitá-lo e até fazer melhor que o Todo Poderoso.

Até hoje se trabalha para descobrir o “design divino por trás dos fenômenos” (76), mas as formas e formulas “descobertas” são coisas criadas pelo homem ou coisas criadas por um Deus realmente descobertas?

Descobertos alguns dos segredos de Deus, o homem passa a criar os seus próprios segredos e mundos.

Olivetti, clássica.

Olivetti, clássica.

Por que as máquinas de escrever estalam?

“A explicação é simples: o estalar condiz mais com a mecanização que o desligar”. Flusser justifica a sua explicação dizendo que o mundo pode ser calculado, mas não descrito. Nós adaptamos o mundo a nossos cálculos. Ao contar se alcança sínteses, ao se escrever não. O fato que torna o cálculo tão fascinante é a sua capacidade de projetar mundos perceptíveis aos sentidos. Isto gerou uma revolução cultural, geradora de universos alternativos.

Para saber mais, leia a obra (atualmente esgotada na Editora Cosac Naify):

Livro O mundo codificado, de Vilém Flusser.

Livro O mundo codificado, de Vilém Flusser.

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